Resumo
A guerra de classes em curso exige que as lideranças sindicais e revolucionárias transcendam a leitura superficial da realidade. Este artigo defende que o avanço das tecnologias de geoprocessamento (SIG, Sensoriamento Remoto e GPS) deve ser integrado à missão pedagógica e de militância, servindo como uma ferramenta avançada de mapeamento estratégico e qualificação. O uso dessas tecnologias, em contraposição à ideologia espacial eurocêntrica da Projeção de Mercator, permite a descolonização do olhar geográfico, o diagnóstico preciso das contradições territoriais do capital e a construção de uma práxis revolucionária alicerçada em dados georreferenciados.
- A Cartografia como Campo de Batalha Ideológica
Desde o século XVI, com a Projeção de Mercator, a cartografia tem sido um instrumento de poder. Ao superdimensionar as áreas localizadas nas altas latitudes (Norte Global) e encolher o Sul Global (onde se concentram os continentes explorados), Mercator forneceu o suporte visual para a hegemonia capitalista e colonial.
A missão pedagógica das lideranças classistas, neste contexto, é desmascarar essa distorção. A luta não é apenas por melhores salários ou condições de trabalho, mas também pela reivindicação da verdadeira dimensão do nosso território e do nosso potencial, subestimado pela matriz visual dominante. - O Geoprocessamento: A Tecnologia a Serviço da Classe
O geoprocessamento e os Sistemas de Informação Geográfica (SIG) representam a capacidade técnica de superação do erro de Mercator. Eles permitem:
- A Prova Material da Distorção: Utilizar projeções de área correta (equivalentes), como a de Gall-Peters, lado a lado com a de Mercator, para demonstrar concretamente às bases e à sociedade a escala real da África e da América Latina. Essa visualização é um passo fundamental na pedagogia da consciência de classe sobre o imperialismo geográfico.
- Mapeamento Estratégico da Exploração: O SIG permite cruzar camadas de informação de forma dinâmica e precisa, indo muito além do mapa estático:
- Concentração Fundiária: Mapear a propriedade e o avanço do latifúndio e do agronegócio (dados de INCRA, CAR), identificando áreas estratégicas para a reforma agrária ou conflitos de terra.
- Logística e Infraestrutura do Capital: Rastrear as rotas de escoamento de commodities, a localização de portos e ferrovias, e a matriz energética que sustenta o processo de acumulação.
- Análise do Meio Operário: Georreferenciar as bases sindicais, mapear a distribuição espacial dos trabalhadores em uma cidade ou região industrial e analisar as condições de moradia e infraestrutura urbana dos bairros operários (dados demográficos e de saneamento básico).
Essa qualificação técnica permite à liderança substituir o “achismo” e a generalização por um diagnóstico geográfico rigoroso, otimizando a alocação de recursos, a mobilização e a tomada de decisão estratégica em momentos de luta.
- Missão Pedagógica e a Qualificação de Lideranças
A apropriação do geoprocessamento deve ser um pilar na formação política e técnica das lideranças do movimento sindical e do partido revolucionário:
- Educação para a Soberania: Inserir a cartografia crítica e o manuseio de ferramentas SIG de código aberto (como o QGIS) nas escolas de formação do partido e do sindicato. A liderança precisa aprender a “ler” o território como um palimpsesto de relações de poder e exploração.
- Análise de Paralaxe na Práxis: O Geoprocessamento é ideal para a análise em paralaxe. Por exemplo: sobrepor a camada de riqueza mineral (dado geográfico) com a camada de IDH baixo (dado social) e a camada de presença policial/conflitos (dado político). Essa sobreposição revela a dialética da exploração e a correlação direta entre a riqueza do subsolo e a miséria da população.
- Comunicação e Mobilização: Mapas claros e precisos, gerados por SIG, são ferramentas poderosas de comunicação de massa. Um mapa que mostra graficamente a área de desmatamento ligada a uma corporação específica é mais eficaz para a conscientização e a denúncia do que um longo relatório.
Conclusão: De Mercator ao Mapeamento da Vitória
A Projeção de Mercator é a cartografia da dominação. O Geoprocessamento, quando apropriado pelas classes exploradas, torna-se a Cartografia da Libertação.
A missão das lideranças classistas e revolucionárias é transformar a tecnologia, que nasceu da acumulação capitalista, em uma ferramenta para a superação dessa mesma lógica. Ao qualificar o movimento com o domínio do mapeamento estratégico, garantimos que a visão de mundo — e o planejamento da intervenção — esteja alinhada com a escala real da luta de classes e com a verdadeira dimensão da mudança que queremos construir.
Referências Bibliográficas Relevantes e Necessárias - HARLEY, J. B. The New Nature of Maps: Essays in the History of Cartography. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 2001. (Fundamental para a crítica da cartografia como exercício de poder e ideologia.)
- SANTOS, Milton. Por uma outra Globalização: Do Pensamento Único à Consciência Universal. Rio de Janeiro: Record, 2000. (Essencial para a análise da espacialidade da luta de classes e do papel da técnica e do território no capitalismo globalizado.)
- PETERS, Arno. The New Cartography. Göttingen: Arbeitsstelle Globale Entwicklung, 1983. (Obra central na defesa de projeções de área correta e na crítica ao eurocentrismo cartográfico.)
- FITTE, Silvia; MARQUES, Eduardo. Geotecnologias e o Espaço Geográfico. São Paulo: Paz e Terra, 2008. (Para a compreensão técnica e as aplicações do Geoprocessamento e SIG no contexto da análise territorial crítica.)
- CHOMSKY, Noam; HERMAN, Edward S. Manufacturing Consent: The Political Economy of the Mass Media. New York: Pantheon Books, 1988. (Oferece o quadro teórico para entender como a mídia, e por extensão a cartografia dominante, molda a percepção pública em favor da hegemonia.)
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