Introdução: A Luta no Campo da Cognição
A evolução da humanidade é inseparável da história do trabalho. Como nos ensinou Engels, foi o trabalho—o processo de transformação da natureza e de si mesmo—que moldou a nossa biologia e a nossa consciência. Hoje, assistimos a um novo e dramático ponto de inflexão: a externalização em massa das funções cognitivas através da Inteligência Artificial (IA) e da infraestrutura digital global.
A metáfora da “Cabeça Maior” (a tecnosfera: a nuvem, os algoritmos) versus o “Cérebro Menor” (o órgão biológico em re-especialização) captura a contradição central da nossa época. Contudo, a análise burguesa (o tecnoptimismo liberal) tenta apresentar este processo como um destino evolutivo neutro, universal e inevitável.
Este artigo se propõe a desmantelar esta ilusão de classe. Ao examinar o impacto da evolução tecnológica em paralaxe—isto é, olhando o fenômeno não apenas pelo ângulo da inovação, mas sim pelo prisma da estrutura de classes e da integralidade do ser humano—denunciamos como a apropriação capitalista do conhecimento transforma a promessa de libertação em uma nova e mais profunda forma de alienação: a alienação cognitiva.
I. O Materialismo Histórico e a Dialética do Crânio
O desenvolvimento da técnica sempre foi a materialização do Intelecto Geral (Marx), do saber e da ciência acumulados pela sociedade. O primeiro machado já era uma externalização do conhecimento sobre a física e a geometria. A IA de hoje é, em essência, o ápice dessa externalização: o capital fixo na forma de código, dados e capacidade de cálculo.
A contradição surge quando este “crânio social” (o General Intellect que é, por natureza, coletivo) é cercado e privatizado por grandes corporações (Big Tech). A força produtiva mais avançada da história humana—o saber social—torna-se propriedade privada e instrumento de acumulação de capital.
O que o pensamento burguês (e o senso comum por ele moldado) celebra como “avanço” é a liberação de algumas funções cerebrais para serem substituídas por algoritmos. Mas a questão fundamental é: para onde o ser humano está sendo “liberado”?
II. A Integralidade Humana e a Fragmentação Imposta pelo Capital
A perspectiva classista e dialética exige que se analise o ser humano na sua integralidade: não apenas como mão-de-obra, mas como ser criativo, político, ético, estético e histórico.
A ilusão de classe reside em tratar o impacto da tecnologia de forma fragmentada e instrumental:
- A Redução do Trabalho ao Instrumental: O foco está na eficiência e produtividade. O ser humano deve adaptar-se ao ritmo da máquina e do algoritmo. O cérebro biológico é re-especializado para tarefas rápidas de triagem, multitarefa digital e consumo de conteúdo, atrofiando-se em funções como a memória histórica e a contemplação profunda.
- O Desprezo pela Dimensão Histórica: A cultura digital (redes sociais, feeds infinitos) impõe o imediatismo e o pensamento a-histórico. Se o Google “sabe tudo”, para que o indivíduo precisa desenvolver a capacidade de síntese histórica, de memória de longo prazo e de pensamento abstrato? Este é um mecanismo perverso que despolitiza e fragiliza a consciência de classe, que é, por excelência, histórica.
- A Alienação da Criatividade (o Gatting): Se o software de IA gera o código, a imagem ou o texto, o trabalhador criativo ou intelectual vê o produto do seu pensamento ser cada vez mais externalizado e apropriado. A mais-valia não é extraída apenas do tempo de trabalho, mas da própria capacidade de pensar e de inovar, que é drenada para os modelos de machine learning controlados pelo capital.
A “cabeça menor” não é uma tragédia biológica; é uma tragédia socialmente imposta, um sub-aproveitamento programado do potencial humano para atender à demanda por operadores eficientes e consumidores passivos, e não por cidadãos críticos e seres humanos integrais.
III. Denúncia Classista: Quem Controla o Crânio Social?
A principal denúncia deve ser: O crânio social é uma infraestrutura de controle de classe. - Vigilância e Controle: A “cabeça maior” serve para rastrear, prever e controlar o comportamento da classe trabalhadora (desde a produtividade na linha de montagem de um call center até o consumo ideológico nas redes).
- Centralização de Poder: O capital digital concentra o poder como nunca antes na história. O controle dos dados e dos algoritmos é a posse dos novos meios de produção cognitivos, reforçando as desigualdades globais e regionais.
- O Trabalho Não Pago (O Novo Metabolismo Capitalista): Milhões de horas de dados, interações e correções fornecidas pelos usuários das plataformas alimentam e treinam a IA gratuitamente — o novo “trabalho não pago” que é a base da acumulação da Big Tech.
A ilusão de classe se manifesta no discurso de que a tecnologia é “democratizadora” quando, na verdade, ela está aprofundando as fissuras entre a classe que possui e controla os algoritmos e a classe que é por eles operada e controlada.
Conclusão: A Luta pela Emancipação do Intelecto Geral
A crise da dialética do crânio é, em essência, a crise do trabalho alienado levado à sua máxima potência.
A nossa tarefa militante e teórica é rejeitar a passividade e transformar a contradição. A tecnologia tem o potencial de ser o instrumento definitivo para a libertação humana: automatizando o trabalho repetitivo, reduzindo a jornada de trabalho a um mínimo histórico e liberando o tempo humano para o Reino da Liberdade (arte, filosofia, política, ciência pura).
Mas, para isso, o General Intellect deve ser desprivatizado. A luta de classes hoje é também pela propriedade e controle social dos meios de produção cognitivos. Somente com a desmercantilização do conhecimento e a recuperação da integralidade humana, o “crânio social” poderá servir como base para o desenvolvimento de um espírito humano maior, mais profundo, histórico e livre.
A luta é pela posse dos algoritmos e pela formação de consciências livres!
Referências Bibliográficas Relevantes - MARX, Karl. Grundrisse: Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1857-1858. São Paulo: Boitempo Editorial, 2011. (Essencial para o conceito de General Intellect e o papel da ciência como força produtiva).
- ENGELS, Friedrich. O Papel do Trabalho na Transformação do Macaco em Homem. Várias Edições. (Fundamental para a tese de que o trabalho é a categoria central da humanização e da evolução biológica e social).
- LUKÁCS, György. Para uma Ontologia do Ser Social. São Paulo: Boitempo, 2013. (Análise profunda sobre o trabalho, a teleologia e a integralidade do ser social).
- HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. Império e Multidão. Rio de Janeiro: Record, 2005. (Trabalha o conceito de trabalho imaterial, biopoder e a produção social do conhecimento e da subjetividade).
- ZUBBOFF, Shoshana. A Era do Capitalismo de Vigilância: A Luta por um Futuro Humano na Nova Fronteira do Poder. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020. (Embora não seja estritamente classista, fornece a denúncia detalhada sobre a apropriação dos dados e o controle comportamental pelas grandes plataformas, o que materializa o “crânio social” capitalista).
- ANTUNES, Ricardo. O Privilégio da Servidão: O Novo Proletariado de Serviços na Era Digital. São Paulo: Boitempo, 2018. (Análise contemporânea sobre a precarização e a subsunção do trabalho ao capital nas plataformas digitais).
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