A Era dos Extremos Recarregada: A Luta de Classes em Escala Global e a Gênese de um Novo Conflito Mundial

Introdução
A conjuntura histórica atual clama por uma análise que transcenda os limites da geopolítica tradicional. Não estamos apenas assistindo a uma competição entre potências ou a um “choque de civilizações”; o que se desenrola é a manifestação aguda da luta de classes em escala global, com o capital financeirizado transnacional de um lado, e a ampla e diversa maioria global – que inclui potências emergentes, nações soberanas e movimentos sociais – do outro. A crise orgânica do imperialismo hegemônico, longe de ser um declínio pacífico, impulsiona o mundo em direção a um cenário de extrema polarização, resgatando a sombra de uma “Era dos Extremos” e apontando para a possibilidade de uma inédita Guerra Global de Classes.
I. A Crise Orgânica do Hegemônico: O Imperialismo em Agonia
A tese de que o bloco hegemônico ocidental, liderado pelos EUA, atravessa uma crise orgânica, no sentido gramsciano, é o ponto de partida para a compreensão da escalada. Essa crise não é meramente econômica; ela atinge a capacidade do império de manter sua hegemonia e liderança moral sobre a maioria do planeta.

  • Erosão da Moeda-Arma (O Dólar): O dólar, mais do que um meio de troca, é o pilar da expropriação imperial. Sua utilização como arma de sanções e confisco expôs sua vulnerabilidade. A aceleração da desdolarização em blocos como o BRICS+ (comércio em moedas locais, busca por ouro e mecanismos de pagamento paralelos) é a revolta da maioria global contra a “taxação imperial” e um sintoma de que a credibilidade do hegemon, antes lastreada na força produtiva, e hoje apenas na militar, se esvai rapidamente.
  • Crise de Credibilidade do “Modelo”: O modelo da democracia liberal de fachada, casada com o neoliberalismo e a financeirização da vida, perdeu seu apelo global. A maioria dos 88% do planeta busca caminhos de desenvolvimento soberano e sustentável, rejeitando um modelo que gerou desigualdade abissal, endividamento crônico e destruição ambiental, inclusive nas classes trabalhadoras do próprio Norte Global.
    II. A “Guerra de Classes em Escala Global” como Motor do Caos
    O cerne da análise reside na compreensão de que a geopolítica atual é a superestrutura da luta de classes. O “Império do Caos” é o nome da estratégia da elite globalizada para gerenciar sua crise e manter a taxa de lucro.
  • A Estratégia das “Guerras Eternas”: As guerras contemporâneas (Ucrânia, Oriente Médio) não são acidentes, mas o motor de acumulação por excelência. São a Destruição Criadora de Schumpeter levada ao paroxismo, gerando lucros obscenos para os complexos industrial-militares e energéticos, destruindo competidores e permitindo a fuga de capitais para o centro hegemônico. A guerra é, fundamentalmente, uma transferência de riqueza do trabalho para o capital financeiro, uma forma violenta de acumulação por espoliação.
  • A Proletarização do Norte Global: Um ponto crucial é o fato de que a elite transnacional (Wall Street, Big Tech, City de Londres) está em guerra não apenas contra as nações soberanas do Sul Global, mas também contra suas próprias populações. A austeridade, o encolhimento de salários reais e a precarização em massa transformam a “classe média” ocidental em proletariado, alinhando objetivamente seus interesses aos dos trabalhadores do Sul Global. O ódio fabricado contra “inimigos externos” (Rússia, China, migrantes) é a cortina de fumaça ideológica para mascarar essa guerra interna.
    III. A Agudização do Conflito: Rumo à “Guerra Global de Classes”
    A grande questão posta é a tendência de agudização dessa polarização, onde o movimento social e a geopolítica convergem. O paralelo com o século XX é inevitável.
  • A Convergência de Lutas: A Geopolítica como Frente Única: No século XX, a ameaça nazifascista (o capital em sua face mais bárbara) forçou a união de potências capitalistas com a União Soviética e a resistência dos movimentos populares. Hoje, o inimigo não é uma nação, mas um projeto de dominação e barbárie do capital financeiro transnacional. A formação de blocos como o BRICS+ e a OCS é a materialização da autodefesa e da busca por soberania nacional como trincheira anti-imperialista e, portanto, classista.
  • Tendência de Escalada: A recusa do hegemon em aceitar um mundo multipolar leva a uma intensificação das provocações (sanções, “guerras por procuração”, “revoluções coloridas”). Isso empurra as nações e os movimentos sociais para uma aliança cada vez mais estreita. O que une o agricultor indiano, o trabalhador brasileiro, o governo russo, os manifestantes anti-guerra na Europa e as nações do Golfo é a defesa da soberania nacional contra o predador global, estabelecendo uma “Frente Única” de facto contra o projeto unipolar do caos.
  • A Confluência das Ruas e dos Estados: As gigantescas manifestações de rua em todo o planeta, inclusive na Europa e nos EUA, contra o custo de vida, a guerra, a austeridade e o apoio incondicional a regimes de agressão (Oriente Médio, Ucrânia), são a expressão mais direta da luta de classes no centro do império. A tendência mais radical aponta para a união dessas bases sociais — as “ruas” — com a agenda dos Estados do Sul Global (o “BRICS+”) na contestação global.
  • A Nova “Era dos Extremos”: Se no século XX a luta foi entre o projeto civilizatório socialista/anti-fascista e a barbárie do capital, hoje a polarização se dá entre o Projeto Unipolar do Capital Financeirizado (guerra, caos, austeridade, fundamentalismo de mercado) e o Projeto Multipolar da Soberania Nacional e do Desenvolvimento Inclusivo (respeito mútuo, cooperação ganha-ganha, controle sobre recursos). A agudização desse conflito, com o risco de colapso de instituições e cadeias de suprimentos globais, de fato prenuncia uma nova “Era dos Extremos”, onde a clareza da trincheira de classe definirá o futuro.
    Conclusão: A Tarefa Histórica da Militância
    A clareza da análise se traduz na urgência da militância.
  • Desmascarar a Ideologia: É imperativo denunciar que a “defesa do mundo livre” é a defesa da oligarquia global e que o aumento da inflação e o custo de vida são o preço que as classes populares, no Norte e no Sul, pagam pela crise terminal do imperialismo.
  • Fortalecer a Trincheira da Soberania: Em nosso contexto nacional, a luta pelo controle de recursos, por uma política externa independente e pela inserção ativa no BRICS e em outros blocos multipolares é a forma concreta de travar a Guerra Global de Classes contra o capital predatório.
  • Construir a Aliança Global: A nossa tarefa é buscar a união das forças classistas e dos movimentos sociais com o campo geopolítico multipolar. A Pátria Grande Soberana e Socialmente Justa se constrói na aliança com todos os povos que lutam contra o opressor comum.
    A crise do hegemônico é a oportunidade histórica. A luta não é apenas por um mundo multipolar, mas por um mundo mais justo. E o primeiro passo para a vitória é a clareza analítica.
    Referências Bibliográficas Relevantes (Sugestões):
  • ARRIGHI, Giovanni. O Longo Século XX: Dinheiro, Poder e as Origens de Nosso Tempo. (Essencial para entender as crises hegemônicas e a transição do poder).
  • HOBSBAWM, Eric J. Era dos Extremos: O Breve Século XX, 1914-1991. (Para a análise da polarização histórica e a sombra de um novo período de conflito extremo).
  • GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. (Em especial, os conceitos de “crise orgânica”, “guerra de posição” e hegemonia).
  • CHESNAIS, François. A Mundialização do Capital. (Para aprofundar a natureza do capital financeirizado transnacional).
  • SANTOS, Theotonio dos. A Estrutura da Dependência. (Para compreender a posição dos países do Sul Global na economia-mundo e a necessidade de soberania).
  • DEZAN, Ricardo. Geopolítica e Luta de Classes: O Sentido da Guerra na Ucrânia e no Oriente Médio. (Análises contemporâneas que conectam a guerra à acumulação de capital).

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