Resumo
Este artigo sistematiza o debate sobre o modelo de desenvolvimento chinês a partir da contraposição entre a observação empírica (a alta tecnologia dos trens e a produção sustentável de bambu) e a análise teórica de quadros como Elias Jabbour. Em uma perspectiva de militância classista, a análise em paralaxe revela que o sucesso da China não é um mero produto de um “capitalismo de estado” eficiente, mas sim o resultado da subordinação das leis do mercado capitalista a um planejamento estatal estratégico orientado pela utilidade social e pelo desenvolvimento das forças produtivas, em contraste direto com a lógica de rentabilidade e concentração de riqueza imposta pelo modelo neoliberal ocidental.
- Introdução: O Fato e a Tese
As recentes observações de figuras como Diego Costalonga sobre a capacidade chinesa de produção em escala de itens sustentáveis (como os de bambu) e a menção à infraestrutura de ponta (trens de alta velocidade) por Elias Jabbour atuam como fatos-síntese de uma questão maior: o que impulsiona o desenvolvimento vertiginoso da China?
A perspectiva dominante no Ocidente, pautada pela ideologia neoliberal, tenta enquadrar o fenômeno chinês como uma versão heterodoxa do capitalismo. Contudo, a análise em paralaxe – confrontando o que se vê com o porquê se vê – aponta para uma racionalidade econômica e política de natureza distinta, onde a finalidade da produção não é o lucro em si, mas a satisfação da demanda humana e a elevação do bem-estar material e espiritual da população. - A Materialidade do Planejamento: Do Bambu ao Trem de Alta Velocidade
Os dois exemplos citados – o bambu (sacolas, pratos) e os trens de alta velocidade – ilustram a coexistência e o sucesso do planejamento chinês em diferentes níveis da economia:
a) A Produção de Base e a Utilidade (O Bambu)
A produção em grande escala de itens de uso diário e ecologicamente relevantes (bambu) demonstra a capacidade do Estado Chinês de mobilizar recursos e tecnologia para atender a uma demanda básica de forma eficiente e sustentável. Este é um exemplo clássico da primazia do valor de uso sobre o valor de troca. O objetivo é a utilidade prática para o consumidor e o impacto ambiental, e não apenas a maximização da margem de lucro de uma empresa privada específica. A liberdade da criatividade e da inovação é, neste caso, canalizada para resolver problemas concretos da sociedade.
b) A Infraestrutura Estratégica e a Escala (O Trem)
O desenvolvimento de uma malha ferroviária de alta velocidade em escala continental, como Jabbour aponta, é inviável sob a lógica puramente neoliberal. Projetos dessa magnitude exigem um investimento inicial colossal, um horizonte de retorno de décadas e uma visão de integração nacional que transcende a rentabilidade de curto prazo.
Em um modelo neoliberal, a infraestrutura é privatizada e precarizada para garantir o lucro dos acionistas (concentração de riquezas). Na China, o investimento é orientado por uma disciplina planejada com a finalidade de desenvolver as forças produtivas, reduzir os custos de logística, integrar regiões e, fundamentalmente, diminuir o tempo de deslocamento do trabalhador (o que Jabbour já destacou como um avanço social significativo). - O Pulo do Gato: A Subordinação do Mercado
O ponto central da análise classista é a racionalidade que governa o processo. O “milagre” chinês reside no fato de que o Partido Comunista Chinês (PCCh) e o Estado retêm o controle sobre a matriz econômica, utilizando o mercado como uma ferramenta de eficiência na alocação de recursos, mas não como o propósito final da economia.
Categoria de Análise Racionalidade Chinesa (Modelo Socializante) Racionalidade Neoliberal (Lei do Mercado)
Objetivo Final da Economia Desenvolvimento das forças produtivas e bem-estar social (utilidade e satisfação humana). Acúmulo de capital e concentração de riqueza (rentabilidade e lucro).
Papel do Planejamento Central e estratégico (decisões sobre setores-chave e investimentos em escala). Inexistente; o mercado regula a si mesmo de forma “cega”.
Motivação da Inovação Necessidade social e utilidade humana. Oportunidade de aumentar a taxa de lucro (financeirização).
O modelo chinês prova que a criatividade, a disciplina e a organização podem ser desvinculadas da “suferição do acúmulo e a concentração de riquezas”, típica do capitalismo em sua fase neoliberal. A disciplina planejada é um ato de liberdade estratégica, pois liberta a produção das amarras da rentabilidade imediata imposta pelas leis do mercado capitalista, permitindo que a economia sirva à demanda e satisfação da humanidade. Conclusão: Uma Lição para a Militância Classista
O modelo chinês se configura, portanto, como uma forma inovadora de projeto nacional de desenvolvimento com caráter socializante. Ele oferece à militância classista global uma lição fundamental: o desenvolvimento pleno – material e espiritual – de uma nação é incompatível com a “liberdade” irrestrita do capital e a ditadura da rentabilidade. É apenas através do controle político-estatal sobre a macroeconomia e da orientação da produção para a utilidade social que se pode realizar a evolução plena da sociedade, algo impossível em países onde a lógica do acúmulo financeiro domina a política e a produção.
Referências Bibliográficas Relevantes (Sugestões de Leitura e Pesquisa)- Jabbour, Elias M. K. China: o Socialismo do Século XXI. São Paulo: Boitempo, 2019. (Obra fundamental para entender o papel do planejamento e a tese do socialismo de mercado.)
- Jabbour, Elias M. K.; Dantas, A. R. China: Projeto Nacional, Desenvolvimento e Socialismo de Mercado. Curitiba: Appris, 2017. (Aprofunda o conceito de projeto nacional chinês.)
- Lênin, V. I. O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo. Diversas edições. (Contexto clássico sobre a lógica do acúmulo e a estagnação sob o capital monopolista.)
- Harvey, David. Breve História do Neoliberalismo. São Paulo: Edições Loyola, 2007. (Para aprofundar o contraste e a lógica de acumulação por espoliação que o modelo chinês busca contornar.)
- Fontes, Virgínia. Capitalismo em Crise e Crise do Capitalismo. Diversas publicações. (Para a análise conjuntural sobre as limitações estruturais do modelo neoliberal em contraste com o planejamento.)
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