Do Trilho ao Tanque: Görlitz e o Paradoxo da Sobrevivência Econômica no Motor do Rearmamento Alemão — Uma Análise Classista da Crise da Civilização Ocidental

O caso da conversão da histórica fábrica de trens da Alstom em Görlitz, na fronteira oriental da Alemanha, em um centro de produção de componentes para tanques Leopard II e veículos blindados Puma pela KNDS, transcende a mera notícia econômica. Ele se estabelece como um microcosmo agudo das profundas contradições da Europa e do capitalismo contemporâneo, alinhando-se diretamente à crítica radical do seu questionamento sobre as origens das mazelas modernas.
A essência do debate reside no paradoxo da sobrevivência: em uma região castigada pela desindustrialização pós-reunificação e pelo êxodo juvenil (o locus de frustração que alimenta a ultradireita pró-Rússia, AfD), a única “segunda chance” de emprego surge da necessidade militar impulsionada pela guerra na Ucrânia e pela guinada estratégica da Alemanha rumo ao rearmamento.
Em paralaxe, a análise revela que a Europa, berço do capitalismo, da colonização e das Grandes Guerras, reitera sua dependência estrutural da indústria da morte para sustentar seu tecido econômico e político. A antiga vocação para a mobilidade civil (trens que uniam continentes) é substituída pela função de proteção militar (tanques que defendem fronteiras), evidenciando que a segurança e o emprego, sob a lógica capitalista, tornam-se reféns da geopolítica belicista.
A tensão fundamental, sob uma ótica classista, é: o emprego, vital para a classe trabalhadora, é garantido apenas se servir aos imperativos do Estado e do Capital (a “nova economia de defesa”), contradizendo o profundo pacifismo cultural pós-guerra da Alemanha. O destino do trabalhador de Görlitz—que aceita o tanque como um mal menor para pagar as contas—resume o dilema de uma civilização que transforma sua história pacífica em uma engrenagem de poder militar para sobreviver economicamente.
Estrutura do Artigo
I. A Metamorfose Fabril como Símbolo da Crise Europeia
A conversão de Görlitz é o ponto de inflexão de três crises: a desindustrialização estrutural do Leste Alemão, a crise de segurança europeia pós-Ucrânia e a crise de legitimidade política (simbolizada pela alta votação na AfD). A resignação dos líderes locais e sindicais (“Não é motivo de comemoração, mas também não podemos nos opor à criação de empregos”) captura a tragédia do capitalismo periférico dentro de um centro hegemônico. A necessidade material de trabalho sobrepõe-se ao imperativo ético do pacifismo.
II. A Lógica do Capital: Rearmamento como Política Industrial
O rearmamento alemão (o Zeitenwende) não é apenas uma resposta à Rússia; é uma política industrial disfarçada. O aumento dos gastos com defesa injeta dezenas de bilhões de euros no setor, transformando Rheinmetall, Diehl Defence e outras empresas em motores de contratação e lucro. A frase do CEO Armin Papperger (“se o dinheiro dos contribuintes financia a segurança nacional, os empregos devem permanecer na Alemanha”) é a confissão de que a defesa se tornou o novo eixo para o qual o capital é direcionado, sustentando o tecido produtivo nacional.
III. A Paralaxe Histórica: A Europa e a Indústria da Morte
A conversão de Görlitz remete à sua crítica histórica: quem inventou as Grandes Guerras e a lógica imperial? A Europa, ao reverter fábricas de bens civis para a produção de armamentos em escala industrial para se proteger, repete o ciclo em que sua prosperidade (e agora, sua sobrevivência) está interligada à produção de instrumentos de conflito.

  • Colonização e Imperialismo: A lógica de dominação e expansão (europeia) que impulsionou o colonialismo é, em essência, a mesma lógica de poder que hoje exige o rearmamento para manter o status quo em uma Eurásia instável. O capital, sempre em busca de novas frentes de acumulação, encontra no setor de defesa (financiado pelo Estado) uma “garantia” de lucro.
  • O Dilema do Pacifismo vs. Capital: O pacifismo do pós-guerra na Alemanha (uma reação direta ao Nazismo e ao Fascismo, ideologias de origem europeia) está sendo pragmática e amargamente sacrificado no altar do emprego e da defesa nacional. A tragédia é que a solução para a desindustrialização (“salvar empregos”) é precisamente a intensificação de uma economia que depende da continuidade da guerra e da tensão geopolítica.
    IV. Conclusão: O Paradoxo do Sofrimento e do Progresso
    O trabalhador de Görlitz, protagonista involuntário da história, resume o dilema: a nostalgia pelos trens (símbolo de progresso civil) e a aceitação pragmática dos tanques (símbolo de sofrimento e conflito). O caso prova que, sob o capitalismo, o avanço tecnológico e o emprego podem ser mobilizados não para o bem-estar coletivo (como a mobilidade) mas para a perpetuação da segurança militar e dos interesses das grandes corporações armamentistas. Görlitz não é uma aberração; é a representação mais nítida de como o Capitalismo, no século XXI, recicla as tensões históricas do imperialismo para garantir a acumulação em tempos de crise estrutural.
    Referências Bibliográficas Relevantes e Disponíveis
    As referências abaixo são fundamentais para aprofundar o debate a partir de uma perspectiva classista, histórica e crítica do capitalismo e do imperialismo.
  • LENIN, V. I. Imperialismo: Fase Superior do Capitalismo. Diversas edições.
  • Relevância: Essencial para entender a conexão entre o capital financeiro, a disputa por mercados e a inevitabilidade da guerra como uma característica inerente à fase monopolista do capitalismo. O rearmamento de Görlitz é a nova fase da “exportação” de capital e da busca por áreas de influência.
  • HOBSBAWM, Eric J. A Era dos Extremos: O Breve Século XX, 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras.
  • Relevância: Contextualiza as Grandes Guerras como produtos das tensões e contradições europeias, e o pós-guerra alemão (e seu pacifismo) como uma reação direta aos horrores da indústria de morte. A guinada em Görlitz sugere o fim desse “breve século XX”.
  • HARVEY, David. O Neoliberalismo: História e Implicações. São Paulo: Edições Loyola.
  • Relevância: Ajuda a enquadrar a desindustrialização do Leste Alemão e a subsequente busca desesperada por emprego. O neoliberalismo (e sua desregulamentação) cria a crise social que só pode ser “resolvida” por injeção de capital estatal no setor de defesa (um tipo de keynesianismo militar).
  • SAID, Edward W. Cultura e Imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras.
  • Relevância: Embora trate de impérios culturais, oferece a lente para entender a persistência de mentalidades hegemônicas e a estrutura de poder global (o “Império do Caos”) que hoje exige a subordinação de economias locais à lógica da defesa militar da potência central.
  • MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Diversas edições.
  • Relevância: Base conceitual para a análise classista. O artigo de Görlitz demonstra a dependência do trabalhador em relação ao capital (a burguesia armamentista), aceitando qualquer trabalho que o sistema ofereça, mesmo que contradiga a moralidade social.

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