O Retiro do Imperialismo e o Despertar da Unesco para os Povos

O cenário geopolítico global é marcado, mais uma vez, pela arrogância do “império do caos”. A anunciada saída dos Estados Unidos da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), prevista para o final de 2026, é um ato que expõe a hipocrisia das potências hegemônicas e a crise da ordem multilateral que elas mesmas desenharam.
A nomeação do egípcio Khaled El-Enany como novo diretor-geral, o primeiro árabe a ocupar o cargo, surge, nesse contexto, não apenas como uma mudança administrativa, mas como um sopro de resistência vindo do Sul Global. Sua experiência, forjada em um “país que não é muito rico”, é a antítese da mentalidade imperial e a chave para a sobrevivência e a reorientação da Organização.

  1. A Postura Infantil e Incoerente do “Império do Caos”
    Os Estados Unidos justificam sua saída alegando um suposto “viés anti-israelense” e o apoio da Unesco a “causas sociais e culturais que dividem”. Esta alegação é a prova cabal da atitude egocêntrica e infantil de um Estado que se recusa a acatar o resultado de um fórum multilateral quando este contraria seus interesses geopolíticos diretos.
    O Imperialismo, aqui personificado pelos EUA, age como uma criança mimada: só participa do jogo se puder ditar as regras e vencer. Ao retirar o financiamento – uma perda de cerca de 8% do orçamento – e se desvincular da Organização, os EUA não apenas punem a Unesco, mas buscam coerção financeira e política. A “ajuda” imperialista revela-se, portanto, uma ferramenta de dominação: se não há submissão, há retaliação.
    Tal postura denuncia o caráter seletivo da “ordem internacional baseada em regras” tanto apregoada. Para Washington, as regras são válidas apenas quando legitimam sua hegemonia; quando a Unesco ousa debater ou divergir sobre a questão palestina ou outras pautas sensíveis, o “império” quebra o tabuleiro e se retira. Essa incoerência arrogante mina a própria confiança na diplomacia global.
  2. A Força e a Atitude Certa do Sul Global
    Em contraste com o abandono imperialista, a eleição de Khaled El-Enany resgata a importância da experiência periférica. Sua declaração — “Tenho experiência nessa área porque não venho de um país muito rico” — é um manifesto. Ela revela que a gestão da escassez, a busca por parcerias e a capacidade de inovar com recursos limitados são a verdadeira expertise de que o mundo precisa hoje.
    A saída dos EUA, embora um golpe financeiro, força a Unesco a buscar a autonomia e a se desvencilhar da dependência do “cheque” imperial, abrindo caminho para uma governança mais horizontalizada e justa.
  3. A Unesco para os Povos: Rumo à Descolonização da Pauta
    O slogan de El-Enany — “A Unesco para os Povos” — é o guia programático que o movimento classista e anti-imperialista deve aplaudir e cobrar.
    Essa visão se opõe à concepção restrita de que a Unesco deve ser apenas um clube de especialistas focado unicamente no patrimônio cultural de elite. Ao focar nos “povos”, o novo diretor sinaliza uma reorientação necessária para a base social, priorizando as áreas vitais da Educação e da Ciência para o desenvolvimento humano na periferia do capitalismo. Isso inclui:
  • Educação como ferramenta de emancipação social, combatendo a desigualdade de acesso e a doutrinação neoliberal.
  • Ciência e tecnologia como bens públicos, contra a apropriação privada e o monopólio das nações ricas.
    O desafio de El-Enany será manter a imparcialidade prometida, ao mesmo tempo em que promove uma politização progressista da entidade, resistindo à pressão política e financeira e garantindo que os valores da Unesco sirvam, de fato, aos interesses da maioria explorada do planeta, e não aos ditames da minoria dominante.
    A crise imposta pelo “império do caos” pode, ironicamente, ser a oportunidade para que a Unesco se torne um instrumento de transformação verdadeiramente democrático e popular.
    Referências Constitucionais e Relevantes
    Embora o artigo não cite leis diretamente, a análise se apoia nos princípios fundamentais que regem a ordem internacional e a função social das organizações multilaterais:
  • Constituição da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco): Seu Preâmbulo declara que “a paz deve ser baseada […] na solidariedade intelectual e moral da humanidade”. A saída dos EUA viola esse espírito de solidariedade, transformando-o em um cálculo frio de poder.
  • Princípios Fundamentais da Carta da ONU: O artigo 2.º, que estabelece a igualdade soberana de todos os seus Membros e o cumprimento de boa-fé das obrigações assumidas, é ignorado pela atitude unilateral dos EUA.
  • Princípios Constitucionais de Relações Internacionais (Exemplo – Constituição Federal Brasileira, Art. 4º): Princípios como a prevalência dos direitos humanos, a autodeterminação dos povos e a cooperação entre os povos para o progresso da humanidade (e não para a dominação) são o contraponto ético e legal à postura imperial dos EUA. A nova direção, com seu foco nos “povos”, se alinha mais a esses valores progressistas.
  • Obras de Teoria Crítica e Classista: A análise se baseia no conceito de Imperialismo (e suas formas contemporâneas) e na crítica à hegemonia e à unilateralidade das potências centrais no sistema capitalista global.

Deixe um comentário