Nostalgia Seletiva e Luta de Classes: Uma Análise em Paralaxe da “Geração Inesquecível”

Introdução
O presente artigo se propõe a desconstruir a narrativa geracional recorrente nas mídias sociais que celebra a “capacidade de adaptação” e a “vida rica” da geração nascida entre as décadas de 1940 e 1960. O objetivo é aplicar uma análise em paralaxe — que confronta a perspectiva individualizada e romântica com a materialidade histórica da luta de classes e da opressão estrutural — para expor os riscos que essa nostalgia seletiva representa para a memória democrática e os avanços emancipatórios. A perspectiva adotada é a da militância classista que defende a emancipação plena do proletariado, das mulheres, dos idosos e o combate a toda forma de preconceito (racismo, eugenia, xenofobia, capacitismo).
O Risco da Nostalgia Uniformizante
O texto-base, ao enumerar as transições tecnológicas e históricas (“dos discos para o streaming”, “sobrevivemos à pólio”), utiliza o pronome “Nós” de forma totalizante, construindo uma falsa unidade geracional. Essa retórica de pertencimento tem dois efeitos perniciosos:

  • Obscurecimento das Desigualdades: A “capacidade de adaptação” celebrada foi, para a elite, uma escolha de consumo e inovação; para as massas trabalhadoras, foi uma imposição estrutural do capitalismo globalizado, frequentemente sob a forma de precarização do trabalho e desamparo social (anos de hiperinflação, crises fiscais e políticas de ajuste neoliberal nos anos 80 e 90).
  • Exaltação do Sofrimento como Virtude: O texto tange a uma leitura masoquista ao indiretamente glorificar a superação de doenças (pólio, tuberculose) sem questionar as causas sistêmicas da precariedade na saúde pública. Essa visão naturaliza o sofrimento e a ausência de direitos como elementos formadores de “caráter”, desviando o foco da necessidade de políticas públicas universais e da responsabilidade do Estado.
    A Paralaxe Histórica: Ditadura e Supressão de Direitos
    O principal perigo dessa narrativa romantizada reside na sua função como janela para discursos reacionários. O período histórico de formação dessa geração (décadas de 60, 70 e 80) no Brasil coincide com o auge da Ditadura Militar (1964-1985).
    Ao evocar um passado de “ordem” ou “harmonia” (“a religião não era causa de divisão”), a nostalgia despolitizada silencia a violência de Estado:
  • Censura, Tortura e Morte: O Estado negava a soberania e a identidade do povo brasileiro através da repressão cultural e política, atacando justamente os valores de pluralidade e democracia defendidos pela militância progressista.
  • Opressão Estrutural: A suposta “harmonia” era o silêncio imposto pelo racismo, que operava com a violência da polícia política e a segregação social; pelo machismo institucionalizado, que negava autonomia às mulheres; e pelo capacitismo e eugenia social que invisibilizavam e excluíam pessoas com deficiência ou marginalizadas. A busca pela “qualidade de vida” era privilégio, não um direito garantido.
    A memória seletiva atua como um mecanismo ideológico que, ao apagar a luta, a repressão e a miséria, pavimenta o caminho para a defesa de governos autoritários sob o lema de “tempos melhores”.
    Emancipação e a Agenda Constitucional de 1988
    A análise classista e militante exige que a celebração histórica esteja ancorada na busca pela emancipação plena e na materialização dos direitos sociais. O marco fundamental para a superação do passado autoritário e desigual é a Constituição Federal de 1988, que serve como bússola para a agenda progressista.
    A defesa da geração não reside em sua capacidade de “sobreviver” à escassez, mas na capacidade de lutar e conquistar o arcabouço legal que visa combater estruturalmente as opressões citadas:
  • Direito à Igualdade e Não Discriminação: O Artigo 5^\circ da CF/88, ao garantir a igualdade de todos perante a lei, é o fundamento para a luta contra o racismo, a xenofobia e o capacitismo (incisos I e XLI).
  • Dignidade Humana e Direitos Sociais: O Artigo 1^\circ, inciso III (dignidade da pessoa humana) e o Artigo 6^\circ (direitos sociais: educação, saúde, moradia, previdência social, proteção à maternidade e à infância, assistência aos desamparados) são a antítese da naturalização da privação. Eles transformam as necessidades em direitos do Estado, superando a ideia de “salvação individual” por meio do sofrimento.
  • Proteção a Grupos Vulneráveis: A Constituição assegura direitos específicos para mulheres e idosos (Art. 7º, inciso XX e Art. 230), reconhecendo as desvantagens históricas e combatendo o abandono e a invisibilidade.
    Conclusão
    A verdadeira homenagem à “geração que aprendeu a se adaptar à MUDANÇA” deve ser a crítica rigorosa à sua história não contada, à história da luta de classes. Rejeitar o romantismo é essencial para que a nostalgia não se converta em justificação para o retorno de amores fascistas e ditatoriais. O papel da militância é utilizar a memória não para idealizar o passado, mas para fortalecer o compromisso com a Constituição Cidadã e a construção de um futuro onde a liberdade, a prosperidade e a soberania se traduzam em direitos concretos e universais para o proletariado e todos os grupos historicamente oprimidos.
    Referências Bibliográficas e Constitucionais Relevantes
    Referências Constitucionais
  • BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Senado Federal. (Em especial, o Art. 1^\circ – Fundamentos, Art. 5^\circ – Direitos Individuais, Art. 6^\circ – Direitos Sociais e Art. 230 – Proteção ao Idoso).
    Referências Bibliográficas para Aprofundamento
  • ADORNO, Theodor W. Minima Moralia: Reflexões a partir da vida lesada. São Paulo: Editora da Unesp, 2022. (Para aprofundar a crítica à reificação da experiência individual na sociedade capitalista).
  • BOURDIEU, Pierre. A Miséria do Mundo. Petrópolis: Vozes, 2007. (Para análise sociológica das múltiplas formas de dominação e das experiências de sofrimento social).
  • HOBSBAWM, Eric J. A Era dos Extremos: O breve século XX (1914-1991). São Paulo: Companhia das Letras, 1995. (Contextualização das grandes transformações e crises que permearam a trajetória dessa geração).
  • POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 9, n. 18, p. 3-15, 1996. (Fundamental para entender a construção social da memória e os mecanismos de silenciamento dos passados traumáticos, como a Ditadura).
  • REIS, Daniel Aarão. Ditadura e Sociedade: As trilhas da resistência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000. (Para detalhar as formas de repressão e resistência durante o período militar, contrastando com a narrativa de “harmonia” da nostalgia).

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