O discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na 80ª Assembleia Geral das Nações Unidas não foi um mero protocolo diplomático. Foi um manifesto político e, mais do que isso, um diagnóstico da crise da ordem mundial a partir da perspectiva do Sul Global. Analisado sob a lente de uma militância classista, o texto revela que os desafios atuais — da guerra à crise climática — estão intrinsecamente ligados à lógica predatória do imperialismo e à crescente desigualdade.
A Crise do Multilateralismo como Crise de Classe
Lula inicia sua fala com uma denúncia contundente: a ONU está em xeque. A “política do poder” se impõe sobre o Direito Internacional, e o multilateralismo cede espaço a sanções unilaterais e a intervenções arbitrárias. Essa erosão, para a visão classista, não é um fenômeno neutro. Ela é o resultado da reação das potências hegemônicas à ascensão de um mundo multipolar. Quando a soberania de nações é atacada, é a autonomia de seus povos, de suas classes trabalhadoras e de suas instituições que está sendo ameaçada. A ingerência externa, como a que o presidente aponta ter sido usada contra o Brasil, serve aos interesses de uma burguesia global subserviente e saudosa de antigas hegemonias, buscando fragilizar a democracia e a capacidade de um Estado de implementar políticas de desenvolvimento autônomas e inclusivas.
A defesa intransigente da democracia interna, portanto, não é apenas uma questão de rito eleitoral. Ela é a base para a luta por direitos elementares: a alimentação, o trabalho, a moradia e a saúde. O discurso estabelece um elo inseparável entre a democracia política e a democracia social. Ele nos lembra que uma democracia que falha em reduzir as desigualdades é uma democracia incompleta. A luta por um Brasil soberano é, no fundo, a luta por um Estado capaz de proteger sua população da pobreza e da fome — as verdadeiras inimigas da liberdade.
A Luta de Classes em Escala Global
O ponto mais visceral do discurso é a sua pauta econômica. Lula propõe uma agenda radical de justiça global, que traduz a luta de classes para a arena internacional. Ele não pede caridade, mas sim justiça. As propostas de:
- Redução de gastos militares para aumentar a ajuda ao desenvolvimento.
- Alívio da dívida externa dos países mais pobres, especialmente os africanos.
- Tributação global dos super-ricos.
Todas essas medidas são diretas no combate à exploração capitalista em escala global. A ideia de que os bilionários devem pagar mais impostos que os trabalhadores é um princípio básico da militância, mas raramente enunciado com tamanha clareza na principal tribuna mundial. Essa é a essência da luta por um sistema econômico mais justo, que não reproduza a lógica de espoliação colonial e imperialista.
A Denúncia do Genocídio em Gaza: um Ponto de Infração Moral
A crítica de Lula sobre a situação na Palestina é um momento crucial. O presidente condena os ataques do Hamas, mas não hesita em denunciar o “genocídio em curso em Gaza”. A frase “nada, absolutamente nada, justifica o genocídio” é uma linha vermelha que ele traça, acusando a cumplicidade daqueles que poderiam evitar a tragédia. Sob a visão classista, a violência contra o povo palestino, a fome usada como arma de guerra e o deslocamento forçado são práticas de um colonialismo de longa data, que desumaniza e aniquila um povo em sua própria terra. O discurso de Lula, ao apontar a falência do Direito Internacional e a hipocrisia das potências ocidentais que se calam, ecoa o sentimento de solidariedade com os oprimidos do mundo. A defesa da autodeterminação do povo palestino é, portanto, um pilar da luta anti-imperialista.
O Futuro Multipolar: Uma Necessidade e um Desafio
Lula conclui com a visão de um século XXI multipolar. Ele entende que a confrontação não é inevitável, mas que um mundo pacífico exige lideranças que abandonem a lógica de “soma zero”. O reconhecimento da crescente importância do Sul Global, dos BRICS e de outras organizações regionais é a materialização de uma nova ordem em construção, onde a voz dos povos não alinhados pode se fazer ouvir.
No fim, o discurso é um chamado à ação. A fala de Lula na ONU não se encerrou ali; ela abriu um debate fundamental. A luta pela paz, pela democracia e pela soberania nacional é uma luta global, e a militância classista sabe que ela é, em essência, a luta pela emancipação de todos os povos do planeta. A ordem internacional só será justa quando os interesses da classe trabalhadora e das nações oprimidas prevalecerem sobre o capital e a hegemonia.
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