A dinâmica das relações internacionais contemporâneas, marcada pela ascensão de potências como a Índia e a China, sinaliza uma profunda mudança na estrutura de poder global. Longe de ser um fenômeno isolado, essa reconfiguração é a culminação de processos históricos e ideológicos que desafiam a ordem unipolar estabelecida após o colapso da União Soviética. A emergência do BRICS, em particular, é vista por muitos analistas como um “nó crítico” sendo desatado, representando não apenas uma aliança econômica, mas uma frente de resistência contra a hegemonia ocidental.
- A Superação das Cicatrizes Históricas
Para compreender a atual reaproximação entre Índia e China, é imperativo revisitar o legado da colonização europeia. A Grã-Bretanha, com sua política de “dividir para conquistar”, não só explorou o subcontinente indiano e a China, mas também criou as bases para conflitos futuros, como a disputa de fronteira na região do Himalaia. As fronteiras artificiais traçadas pelos colonizadores, como a Linha McMahon, serviram como sementes de desconfiança e atrito. A atual busca por uma solução para essas disputas pode ser interpretada como uma tentativa de superar essas cicatrizes históricas e construir uma relação baseada em interesses compartilhados, em oposição às rivalidades fomentadas pelo imperialismo.
A colonização, como um processo de pilhagem e desestruturação, representou um atraso colossal para o desenvolvimento da humanidade. Milhões de vidas foram perdidas, e economias prósperas foram desmanteladas para servir aos interesses das potências coloniais. A Grã-Bretanha, por suas atrocidades, é frequentemente citada como um dos maiores agentes genocidas da história. A memória desse sofrimento coletivo molda a perspectiva das nações do Sul Global, que veem na aliança do BRICS um meio de construir um futuro livre das amarras do passado e das manipulações do “Império do Caos”. - O BRICS como Expressão de uma Nova Consciência Geopolítica
A esperança e o entusiasmo manifestados diante da cooperação entre os membros do BRICS, especialmente após debates com jovens analistas de diferentes nações, ressaltam uma nova consciência geopolítica. A análise desses jovens, baseada em princípios como consciência de classe e clareza ideológica, sugere que a nova geração de líderes e pensadores do Sul Global está pronta para articular uma visão de mundo que transcende a narrativa eurocêntrica.
O movimento em direção à multipolaridade não é apenas uma questão de poder; é uma busca por justiça e equidade. A desdolarização, por exemplo, é um mecanismo de libertação econômica que visa proteger as nações da manipulação financeira e das sanções unilaterais impostas pelo Ocidente. A cooperação em áreas como agricultura, tecnologia e cultura fortalece os laços entre os povos e constrói uma base de solidariedade que é a antítese do conflito fomentado pelo complexo militar-industrial. - O Futuro da Cooperação e o Fim das “Guerras Eternas”
A reconfiguração geopolítica em curso representa um avanço no processo civilizatório da humanidade. Ao invés da predação e do domínio, a nova ordem emergente propõe a cooperação e o desenvolvimento mútuo. As nações do BRICS buscam construir uma arquitetura global mais justa e pacífica, onde os conflitos sejam resolvidos pela diplomacia e pela negociação, em vez da coerção militar.
Apesar da “irá predatória” da OTAN e das “milícias das guerras eternas” que causam tanto sofrimento, o impulso para a paz e a prosperidade dos povos se consolida. O crescente interesse na cooperação Sul-Sul e a rejeição de alianças que buscam a subordinação de outras nações são indícios claros de que a era da unipolaridade está chegando ao fim. A ascensão do BRICS, nesse contexto, é um farol de esperança, demonstrando que é possível construir uma ordem mundial baseada na soberania, no respeito mútuo e na solidariedade.
Referências Bibliográficas Sugeridas:
- Amin, Samir. O Capitalismo e a Ordem Global: Três Ensaios sobre a Questão do Sul. Editora Boitempo, 2011.
- Escobar, Pepe. O Império do Caos. Editora Record, 2017.
- Fiori, José Luís. História da Guerra. Editora Boitempo, 2018.
- Panitch, Leo & Gindin, Sam. O Império do Dólar. Editora Contraponto, 2013.
- Saez, Laurent. China and India: A Comparative Political and Economic Analysis. I.B. Tauris, 2013.
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