O que significa ser uma “gigante mundial”? Para muitos, a ascensão da Rede Globo ao patamar de segunda maior empresa de televisão do planeta, com um faturamento bilionário e alcance global, é motivo de celebração. No entanto, uma análise mais profunda e crítica revela uma contradição fundamental: a mesma força que a torna uma potência econômica e cultural é frequentemente utilizada para fins que, segundo muitos analistas e ativistas, fragilizam o Estado de Direito e a democracia no Brasil.
Este artigo se propõe a desvendar esse paradoxo, confrontando a imagem de sucesso corporativo com um histórico de atuação política que tem sido amplamente denunciado por sua parcialidade e intervenção em momentos críticos da história do país.
A Contradição do Sucesso: Lucro e Poder Acima da Democracia?
A grandiosidade da Rede Globo é inegável. Sua capacidade técnica, a produção de conteúdo de alta qualidade e o sucesso de exportação de suas novelas para mais de 148 países são marcos de uma empresa que domina o mercado. Mas, a partir de uma perspectiva de análise de classe, essa grandeza se torna um problema. O poder econômico e o monopólio de informação não são utilizados para fortalecer a educação cidadã ou o debate plural, mas para defender um projeto político e econômico específico, alinhado aos interesses das elites e do capital.
A crítica se baseia em uma série de episódios que demonstram como a emissora utilizou seu poder para intervir no cenário político:
- Interferências Eleitorais: O mais notório talvez seja o caso do debate presidencial de 1989 entre Lula e Fernando Collor de Mello. A edição do material, que beneficiou Collor e teria influenciado o resultado das urnas, é um exemplo clássico da capacidade de manipulação da narrativa. A tentativa de desqualificar a eleição democrática de Leonel Brizola em 1982 e a campanha que levou ao impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff em 2016 são vistos por muitos como parte do mesmo padrão.
- Apoio a Golpes: A Rede Globo teve um papel controverso em eventos que, na análise de muitos críticos, foram golpes de Estado. O apoio ao golpe militar de 1964 e o endosso ao impeachment de 2016, visto por muitos como um “golpe parlamentar”, reforçam a tese de que a empresa atua de forma decisiva para alterar o curso da história, desrespeitando as instituições democráticas.
- Campanhas de Descredibilização: As campanhas sistemáticas contra o movimento sindical e as denúncias de casos que levaram a linchamentos públicos demonstram a forma como a emissora utiliza seu poder para descredibilizar opositores e movimentos sociais, enfraquecendo a organização da classe trabalhadora.
O Papel da Mídia e a Constituição Federal
A denúncia da atuação da Rede Globo encontra respaldo em princípios constitucionais e na legislação brasileira. A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 5º, inciso XIV, garante a liberdade de informação, mas o faz de forma que pressupõe uma mídia livre e plural, que não sirva a interesses particulares para manipular a opinião pública. No entanto, a concentração da mídia no Brasil, com o controle de grandes grupos sobre a produção e distribuição de notícias, vai na contramão desses princípios.
A defesa de uma imprensa plural e democrática é o cerne do artigo 220 da Constituição, que afirma que a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação não sofrerão qualquer restrição. A concentração da mídia em poucas mãos, no entanto, fere a pluralidade e a diversidade, elementos essenciais para a saúde de uma democracia.
Para além da Constituição, a Lei nº 12.933/2013 estabelece o Marco Civil da Internet, que reforça a necessidade de neutralidade de rede e a pluralidade, princípios que são frequentemente violados por grandes conglomerados de mídia.
A denúncia de que a Globo, apesar de sua grandeza, atua como um “Partido da Imprensa Golpista” (PiG) não é apenas uma crítica política, mas uma reivindicação para que a mídia cumpra seu papel de informar, e não de manipular. A verdadeira grandeza de uma empresa de comunicação não se mede apenas pelo lucro, mas pela sua contribuição para a construção de uma sociedade justa, plural e verdadeiramente democrática.
Referências e Referências Constitucionais - Constituição da República Federativa do Brasil de 1988:
- Artigo 5º, inciso XIV: Garante a todos o acesso à informação, mas pressupõe uma pluralidade de fontes.
- Artigo 220: Versa sobre a manifestação do pensamento e a liberdade de informação, estabelecendo a pluralidade como um princípio fundamental.
- Lei nº 12.933/2013 (Marco Civil da Internet): Estabelece princípios de neutralidade e pluralidade que se aplicam ao ambiente digital, mas que refletem a necessidade de um sistema de comunicação plural.
- Livros e Obras de Crítica da Mídia:
- “O Império da Notícia” de César Benjamin.
- “A História da Rede Globo”, de Daniel Herz e Herbert de Souza (Betinho), que traz relatos sobre os bastidores da emissora em momentos-chave.
- Estudos e Artigos de Mídia e Democracia de pesquisadores como Venício A. de Lima, Bernardo Kucinski e Laurindo Lalo Leal Filho.
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