A Contradição Inerente: Multilateralismo e a Lógica da Vassalagem na Ordem Global

A cena geopolítica contemporânea é marcada por uma profunda contradição. De um lado, o discurso hegemônico dos países do Norte Global — particularmente os Estados Unidos — invoca constantemente os princípios do multilateralismo, da cooperação e do respeito às instituições internacionais. De outro, a prática política real revela uma dinâmica de poder assimétrica, na qual o multilateralismo é frequentemente subvertido para manter uma hierarquia de vassalagem, em que os interesses dos “aliados” ocidentais são submetidos à vontade de uma única potência.
A recente encenação de submissão de líderes europeus na Casa Branca, conforme descrito em sua análise, não é um evento isolado, mas uma manifestação simbólica dessa contradição. A humilhação a que foram submetidos, forçados a esperar a boa vontade do líder americano, expõe a fragilidade da soberania de nações que se autoproclamam o centro do mundo, mas que, na realidade, operam como satélites de uma potência imperial. Essa dinâmica de poder revela que o “multilateralismo” defendido por esses atores é, na prática, um sistema de comando e obediência, onde a hegemonia americana define as regras, e os demais são compelidos a segui-las.
Para o Sul Global, essa realidade não é novidade, mas um padrão histórico. Desde a colonização até as intervenções militares e econômicas do século XX e XXI, as nações periféricas têm sido as principais vítimas da dupla moral do poder hegemônico. A narrativa do “multilateralismo” e da “ordem baseada em regras” foi, e continua sendo, usada para justificar crimes e imposições que servem aos interesses dos poderosos, enquanto a autodeterminação e a soberania dos povos do Sul são ignoradas ou diretamente violadas.
É precisamente neste contexto que a defesa do multilateralismo autêntico, aquela que vem do Sul Global, ganha força e urgência. A ascensão de potências como China, Rússia e o fortalecimento de blocos como o BRICS representam uma ruptura com a lógica da unipolaridade. A resistência desses atores a se submeterem à humilhação e à vassalagem imposta pelo Ocidente não é apenas uma questão de poder, mas uma reafirmação de um princípio fundamental: a soberania e a não-interferência.
A visão de militância, que vê no espetáculo da Casa Branca uma espécie de justiça histórica, entende que o declínio simbólico da arrogância do Norte Global é um reflexo da crescente força do Sul. O que para os hegemonistas é uma tragédia — o fim da sua ordem unipolar — para a perspectiva classista é um momento de desmascaramento, um passo necessário para a construção de um mundo verdadeiramente multilateral. A luta não é apenas por um assento à mesa, mas por uma mesa que não seja dominada por um único poder.
Em suma, a grande contradição da ordem global é que o multilateralismo só pode florescer quando a lógica da vassalagem for completamente abandonada. O desafio do Sul Global, portanto, é continuar a denunciar essa hipocrisia e a construir instituições e alianças que reflitam a sua aspiração por um mundo mais justo, soberano e, de fato, multipolar.
Referências Bibliográficas Relevantes

  • Amin, Samir. O Capitalismo em Crise: A Revolução de Outubro e a Crise Atual do Capitalismo. Editora Boitempo, 2011.
  • Chomsky, Noam. Hegemonia ou Sobrevivência: A Busca dos EUA pelo Domínio Global. Editora Bertrand Brasil, 2004.
  • Fiori, José Luis. O Poder Global e a Nova Geopolítica das Nações. Editora Boitempo, 2010.
  • Said, Edward W. Cultura e Imperialismo. Companhia das Letras, 1995.
  • Wallerstein, Immanuel. O Declínio do Poder Americano. Editora Contraponto, 2003.

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