A reunião entre o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente da Rússia, Vladimir Putin, em 16 de agosto de 2025, foi amplamente noticiada pela mídia ocidental como um encontro tenso e inconclusivo. No entanto, uma análise mais aprofundada, longe das lentes da narrativa hegemônica, revela que esse evento foi um sintoma decisivo do esgotamento da ordem unipolar e do avanço de um novo paradigma geopolítico: a multipolaridade.
A Estratégia do Cerco e a Revanche Russa
Desde o colapso da União Soviética, a política externa dos EUA, articulada sob a influência de estrategistas como Zbigniew Brzezinski, tem tido como objetivo central a fragmentação da Rússia para garantir o controle da Eurásia. O plano, conhecido por sua brutalidade e pragmatismo, previa a divisão do vasto território russo em três nações menores — uma europeia, uma siberiana e uma asiática — para neutralizar qualquer ameaça à hegemonia estadunidense. Para isso, o cerco da Rússia pela OTAN e a incorporação de ex-repúblicas soviéticas, especialmente a Ucrânia, foram elementos cruciais dessa estratégia.
Nesse contexto, a reunião de 16 de agosto representou uma derrota simbólica e prática para a política de isolamento da Rússia. Apesar das tentativas da mídia ocidental de descredibilizar Putin e de focar nas excentricidades de Trump, o encontro transcorreu em termos de igualdade. O fato de Putin ser recebido com as honras de um chefe de Estado e de ter quebrado o protocolo para iniciar a entrevista coletiva demonstram que a Rússia não apenas resistiu à pressão do Ocidente, mas também reforçou sua posição como um ator indispensável na cena global.
O “Unilateralismo Egocêntrico” de Trump e a Crise do Império
A aproximação entre Trump e Putin, embora impulsionada pelo que muitos analistas consideram o egocentrismo e as crises internas do ex-presidente (como o escândalo Epstein), expôs as rachaduras internas do imperialismo estadunidense. O lema “America First” de Trump, por mais nacionalista que fosse, questionou implicitamente as alianças tradicionais e a lógica de intervenção militar da OTAN. Ao negociar diretamente com Putin, Trump minou a estratégia de frente unida que o Ocidente tentava impor, demonstrando que o poder e os interesses hegemônicos não estão mais alinhados em uma única direção.
O evento é um indicativo do declínio do unilateralismo e da fragmentação do próprio polo dominante. A OTAN e a União Europeia, que outrora pareciam monolíticas, veem suas bases de poder erodidas. A inaptidão do Ocidente em reconhecer as aspirações do Sul Global e sua obsessão em manter privilégios históricos contribuem para sua crescente irrelevância.
A Ascensão do Sul Global e o Novo Mapa-Múndi
A derrota moral do Ocidente perante a reunião Trump-Putin foi percebida em todo o Sul Global. Em um momento em que países como México, Espanha e Canadá ponderam uma maior aproximação com os BRICS, a ordem geopolítica tradicional está se desfazendo. O BRICS, longe de ser apenas um bloco econômico, está se consolidando como uma alternativa política e ideológica à hegemonia ocidental, oferecendo uma plataforma para nações buscarem um desenvolvimento autônomo e romperem com as dependências neocoloniais.
Em suma, a reunião entre Trump e Putin não foi apenas um encontro diplomático; foi um divisor de águas que materializou o fracasso da estratégia de isolamento e a inevitável transição para uma ordem multipolar. É a confirmação de que o mundo não se move mais em uma única órbita, mas em múltiplas direções, impulsionadas pela resistência e pela ascensão de novas potências.
Referências
- BRZEZINSKI, Zbigniew. O Grande Tabuleiro de Xadrez: A supremacia americana e seus imperativos geopolíticos. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
- ARBEX JR., José. Guerra Fria: Geopolítica e Ideologia. São Paulo: Boitempo Editorial, 2017.
- WALLERSTEIN, Immanuel. O Declínio do Poder Americano: A Crise Estrutural e a Ascensão do Sul Global. São Paulo: Editora Contracorrente, 2012.
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