O Subdesenvolvimento Brasileiro: Um Labirinto Histórico, Estrutural e Sistêmico

Para compreender as dificuldades do Brasil em trilhar um caminho de desenvolvimento sistêmico, é preciso ir além das notícias do dia a dia e confrontar as suas raízes históricas e estruturais. A análise da fala de Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, sobre a baixa dependência do mercado norte-americano, em contraponto ao debate promovido pela Fundação Maurício Grabois, revela um abismo entre duas visões de mundo. A primeira, adaptativa e gerencial, a segunda, crítica e transformadora.
A Raiz do Problema: A Dependência Histórica e a Teoria da Superexploração
O Brasil não está preso em um labirinto por acaso. A sua formação como economia dependente, inserida na Divisão Internacional do Trabalho como fornecedor de matérias-primas, é um problema que remonta ao período colonial. A obra de Celso Furtado (Formação Econômica do Brasil, 1959) e de Caio Prado Jr. (Formação do Brasil Contemporâneo, 1942) são pilares para a compreensão dessa dinâmica, que moldou a estrutura agrária e a ausência de um projeto de industrialização autônomo.
A crítica de Galípolo à tarifa de 50% dos EUA, embora relevante para a macroeconomia imediata, não enfrenta essa questão de fundo. O fato de o Brasil ter a China como principal parceiro comercial não significa autonomia, mas uma nova forma de subordinação. O país continua sendo um fornecedor de commodities, o que reforça o modelo de produção de baixo valor agregado.
Nesse contexto, a classe trabalhadora é a principal vítima. A teoria da superexploração do trabalho, desenvolvida por Ruy Mauro Marini (Dialética da Dependência, 1973), demonstra como a dependência não é apenas uma relação comercial, mas uma relação de exploração que permite ao capitalista pagar ao trabalhador menos do que o necessário para reproduzir sua força de trabalho. O “tarifaço” dos EUA, a desvalorização do real e a inflação não são meros eventos econômicos; são manifestações de uma vulnerabilidade estrutural que afeta diretamente o salário e a vida dos trabalhadores.
Os Inimigos do Desenvolvimento: Rentismo e o Desmonte do Estado
A perspectiva da Fundação Maurício Grabois, como exposto no vídeo de divulgação do Ciclo de Debates, identifica os inimigos internos que impedem o Brasil de se desenvolver de forma soberana: o rentismo e o esvaziamento do Estado.

  • O Rentismo: Esse é o poder do capital financeiro que se apropria da riqueza gerada pela produção por meio de juros e especulação. Ele drena os recursos que poderiam ser investidos em infraestrutura, tecnologia e industrialização, e aprisiona o país em um ciclo de desinvestimento produtivo. Combater o rentismo, portanto, é a única forma de liberar o potencial de crescimento da economia real e de garantir a distribuição de renda.
  • O Desmonte do Estado: As políticas de privatização, desregulamentação e cortes de investimento público enfraquecem a capacidade do Estado de planejar o desenvolvimento nacional e de proteger a sociedade. Um Estado fragilizado não consegue defender a indústria local da concorrência predatória nem garantir os direitos sociais básicos.
    A Sustentação Constitucional e o Caminho para a Soberania
    A luta por um projeto nacional de desenvolvimento não é apenas uma tese teórica ou um objetivo político, mas um imperativo constitucional. A Constituição Federal de 1988, no seu Artigo 3º, estabelece como objetivos fundamentais da República a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, a erradicação da pobreza e da marginalização, a redução das desigualdades sociais e regionais e a promoção do bem de todos.
    Esses princípios constituem a base jurídica para uma política econômica que priorize o social sobre o financeiro, o produtivo sobre o especulativo, e o soberano sobre o dependente. O Brasil só conseguirá enfrentar seus desafios estruturais se tiver a coragem de construir um novo projeto nacional, pautado na industrialização, na soberania e na justiça social, em vez de se conformar com a posição de “quintal” de potências estrangeiras.
    Referências Bibliográficas e Constitucionais
  • Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.
  • Furtado, Celso. Formação Econômica do Brasil. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1959.
  • Marini, Ruy Mauro. Dialética da Dependência: a Economia Exportadora. México: Edições Era, 1973.
  • Prado Jr., Caio. Formação do Brasil Contemporâneo. São Paulo: Brasiliense, 1942.
  • Galípolo, Gabriel. “Mercado acredita que menor dependência dos EUA virou proteção do Brasil contra tarifaço, diz Galípolo.” In: Money Times. 11 ago. 2025.
  • Fundação Maurício Grabois. “O Brasil precisa de uma virada histórica!” In: TV Grabois, 2025. Vídeo de divulgação.

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