A relação entre Brasil e Estados Unidos, que se estende por mais de duzentos anos, tem sido historicamente marcada não por uma parceria equitativa, mas por uma profunda e abusiva dinâmica de submissão. Longe de um conflito de ódio declarado, o que prevaleceu foi a indiferença do hegemônico em relação à soberania e aos interesses nacionais brasileiros, transformando o Brasil em um instrumento da política externa estadunidense na América Latina. Essa “relação abusiva”, como a definem vozes críticas, revelou-se na coação, na instrumentalização de elites internas e na sistemática limitação da autonomia brasileira.
A Doutrina Monroe e o Brasil como “Lacaio” Regional
Desde a Doutrina Monroe, que buscou consolidar a hegemonia dos EUA nas Américas, o Brasil foi, em diversos momentos, alçado à posição de “lacaio” ou “subimpério” regional. A instrumentalização de sua capacidade militar e diplomática para servir aos interesses de Washington é uma ferida aberta na memória nacional. O exemplo mais notório dessa subserviência foi a participação brasileira na invasão da República Dominicana em 1965. Sob o pretexto da Organização dos Estados Americanos (OEA), o Brasil, manipulado pelos EUA, interveio contra um movimento progressista em um país irmão, manchando sua reputação e solidificando sua imagem de executor da “política do porrete” estadunidense na região.
Essa cooptação se aprofunda na esfera militar, com a presença de um general brasileiro como subcomandante da Quinta Frota Militar do Sul dos EUA. Esse alinhamento reflete a profunda influência da Escola de West Point – conhecida como “chocadeira de ditadores” na América Latina – na formação das elites militares brasileiras, garantindo sua adesão a doutrinas de segurança que priorizam os interesses estadunidenses em detrimento de um projeto soberano de defesa nacional. A Constituição Federal de 1988, em seu Art. 4º, estabelece a autodeterminação dos povos e a não-intervenção como princípios das relações internacionais do Brasil, princípios esses frequentemente violados por essa subordinação histórica.
Trump 2.0: A Humilhação Pelo “Tarifaço” e a Exposição das “Escaras”
A chegada da figura de Donald Trump 2.0 ao cenário internacional não apenas expõe, mas aprofunda as “escaras” dessa relação abusiva. O recente anúncio de um “tarifaço” de 50% sobre produtos brasileiros, fundamentado em alegações políticas e econômicas falaciosas – como a situação jurídica do ex-presidente Jair Bolsonaro e dados comerciais incorretos –, transcende a lógica econômica. Trata-se de um ato de humilhação calculado, um “pelourinho” imposto a uma nação que, sob a liderança do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tem buscado reafirmar sua soberania e sua voz no cenário global.
Essa medida arbitrária, longe de ser um mero ajuste comercial, visa a punir e enfraquecer o Brasil por sua postura mais altiva e sua crescente articulação com países do Sul Global, como o grupo BRICS. A ameaça, na visão de analistas, é clara: o Brasil deve continuar “abaixando a cabeça e expondo sua fragilidade masoquista histórica”, sob pena de castigos ainda mais severos.
A Elite do Atraso e o Desespero Antipatriótico
Diante da pressão estadunidense, a reação de setores da elite brasileira – incluindo parte da grande mídia (o que o articulista chamou de “PiG”) – tem sido de notável desespero e submissão. A sugestão de “sair do BRICS”, um bloco fundamental para a diversificação das parcerias econômicas e políticas do Brasil, revela um alcolismo ideológico a modelos ultrapassados de dependência. Essa elite, que ousa sugerir para “se salvar”, que “vai nego [se referindo ao Presidente Lula] te usar”, demonstra uma mentalidade colonial, incapaz de vislumbrar um futuro de autonomia e protagonismo para o país.
A Constituição Federal de 1988, em seu Art. 4º, incisos I e IX, preceitua a independência nacional e a cooperação entre os povos para o progresso da humanidade como pilares da política externa brasileira. A atitude de setores da elite, ao propor o abandono de alianças estratégicas em momentos de pressão, contraria frontalmente esses princípios constitucionais.
A Firmeza da Soberania e o Caminho da Multilateralidade
Em contrapartida à visão submissa, a postura do Presidente Lula, que reafirma a soberania do Brasil e do povo brasileiro, é um farol de resistência. Sua insistência em negociar e, se necessário, recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC), demonstra um compromisso com o multilateralismo e com a defesa dos interesses nacionais por vias diplomáticas e legais. A menção à aplicação da Lei da Reciprocidade Econômica, se as negociações falharem, é um sinal claro de que o Brasil não aceitará passivamente imposições unilaterais.
A proposta do ex-embaixador Rubens Ricupero, que sugere ampliar o comércio com Europa e Ásia sem adotar uma política de “olho por olho”, embora pragmática e válida para mitigar os impactos econômicos imediatos (como os R$ 52 bilhões de redução nas exportações e o fechamento de 110 mil postos de trabalho estimados pela CNI), deve ser vista com cautela. A busca por novos mercados é essencial, mas não pode significar a aceitação tácita de uma relação de subordinação. O desafio é buscar a diversificação sem abrir mão da capacidade de resposta e da defesa da soberania.
A Luta por uma Relação de Respeito: O Povo no Centro da Soberania
A crise atual, desencadeada pelo “tarifaço” de Trump, é um convite à reflexão profunda sobre a natureza da relação Brasil-EUA e o papel que o Brasil pretende desempenhar no cenário global. A superação dessa “relação abusiva” exige mais do que ajustes comerciais; demanda um projeto nacional de desenvolvimento que coloque a soberania popular e a justiça social no centro das decisões.
É fundamental que o Brasil continue a fortalecer o BRICS, as relações Sul-Sul e aprofunde seus laços com parceiros que respeitem sua autonomia. A denúncia dessa relação histórica de submissão, apoiada pelos princípios da Constituição Federal de 1988 que defendem a independência nacional (Art. 4º, inciso I), a autodeterminação dos povos (Art. 4º, inciso III) e a prevalência dos direitos humanos (Art. 4º, inciso II), é um imperativo ético e político. Somente com a união de suas forças populares e a reafirmação de seus princípios constitucionais, o Brasil poderá finalmente romper as correntes da indiferença e da submissão, construindo uma política externa que reflita sua verdadeira vocação de nação soberana e protagonista.
Referências Disponíveis e Relevantes:
- Constituição da República Federativa do Brasil de 1988: Especialmente o Art. 4º, que estabelece os princípios que regem as relações internacionais do Brasil.
- Documento “Brasil e Estados Unidos na Era Trump 2.0”: Assinado por Rubens Ricupero e Ariane Costa, do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).
- Estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI): Avalia os impactos do “tarifaço” sobre a economia brasileira.
- Fontes Históricas sobre a Intervenção na República Dominicana (1965): Diversos trabalhos acadêmicos e documentos históricos que detalham a participação brasileira.
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