A Farsa da Equivalência: Lula, Trump e a Despolitização da Luta de Classes Global

A ascensão de figuras como Donald Trump e a persistência da relevância de líderes como Luiz Inácio Lula da Silva no cenário político global frequentemente levam a análises superficiais que buscam falsas simetrias. Recentemente, um pesquisador da “direita radical” propôs que Lula e Trump teriam um “mesmo inimigo”, divergindo apenas nos nomes que lhe atribuem. Essa leitura, distante de uma análise materialista e histórica, não apenas rebaixa o complexo contexto conjuntural a uma mera disputa de egos, mas também despolitiza a vital relevância da luta de classes em escala geopolítica mundial e a crescente decadência do modelo capitalista imperialista.
A Falsa Simetria e a Natureza de Classe dos Projetos
A tentativa de igualar Lula e Trump é, em sua essência, uma falácia perigosa. Suas trajetórias, bases de apoio e projetos políticos são intrinsecamente distintos quando analisados pela lente da luta de classes:

  • Lula e a Conciliação de Classes com Concessões Populares: A trajetória de Lula e do lulismo, embora marcada pela conciliação de classes dentro da estrutura capitalista, representa um esforço para incorporar e responder a demandas populares históricas. Suas gestões foram caracterizadas por políticas de valorização do salário mínimo, expansão de programas sociais e inclusão produtiva, que, mesmo com todas as suas contradições e limites estruturais, geraram resistência das oligarquias nacionais e do capital financeiro internacional. Sua base social se assenta em movimentos sindicais, setores progressistas e amplas camadas da classe trabalhadora organizada. O “inimigo” de Lula, em sua perspectiva reformista, é a face mais predatória e excludente do capitalismo neoliberal, buscando mediações para redistribuir parte da riqueza social.
  • Trump e a Ofensiva do Capital Extremo: Em total contraste, Donald Trump é um produto direto do capital financeiro e da extrema-direita neoliberal. Seu discurso reacionário — permeado por xenofobia, racismo, misoginia, negacionismo científico e autoritarismo — mobiliza o lumpesinato desorganizado e parcelas da pequena burguesia branca ressentida, que se sentem marginalizadas pela globalização. Seu governo foi um ataque frontal aos direitos trabalhistas, ambientais e às conquistas sociais, aprofundando a desigualdade e beneficiando diretamente as grandes corporações e os super-ricos. O “anti-elitismo” de Trump é uma demagogia grotesca, vinda de um bilionário que governou exclusivamente para sua classe, utilizando a raiva popular para fortalecer um capitalismo ainda mais selvagem e autoritário, com tinturas de supremacia branca.
    O “Inimigo Comum”: Uma Manobra Despolitizadora
    A sugestão do pesquisador de que ambos combatem um “inimigo comum” (a elite tradicional, o establishment) é uma manobra para ignorar a natureza de classe do conflito:
  • O “Anti-Elitismo” Superficial de Trump: Trump ataca o “establishment” não para desmantelar o capitalismo ou as estruturas de poder que o sustentam, mas para reconfigurá-las em favor de uma facção específica do capital, aquela que lucra com o protecionismo e a desregulação total. Sua crítica é uma disputa interna pela hegemonia burguesa, travestida de rebelião popular.
  • A Luta de Lula e a Resposta das Elites: A resistência que Lula enfrenta, por outro lado, é real e profunda. As oligarquias brasileiras e o capital transnacional respondem com virulência às suas políticas redistributivas, mesmo que reformistas, porque elas tocam, ainda que minimamente, nos privilégios de classe e na lógica da acumulação desregulada.
    Ao tentar encaixar Lula e Trump sob o mesmo guarda-chuva de “anti-establishment”, o pesquisador busca naturalizar o fascismo e a extrema-direita, sugerindo que são apenas uma outra forma de “estar contra o sistema”, assim como a esquerda. Essa falsa equivalência é um instrumento ideológico para desmoralizar a esquerda e confundir as massas, diluindo as diferenças essenciais entre projetos que, embora ambos operem dentro do capitalismo, têm impactos radicalmente distintos sobre a vida da classe trabalhadora.
    Militância Classista: Desmontando a Armadilha do Populismo
    Nossa trajetória na luta de classes nos ensina que:
  • Populismos de direita (como o de Trump) são instrumentos diretos do capital para aprofundar a exploração, dividir a classe trabalhadora por meio de ódios raciais e nacionais, e impor agendas reacionárias. Eles servem para sufocar as demandas sociais e fortalecer a hegemonia burguesa através do autoritarismo.
  • Populismos de esquerda (como o de Lula), por sua vez, emergem como uma resposta às demandas sociais reprimidas, canalizando o descontentamento popular para dentro de uma estrutura reformista, com avanços limitados, mas reais, em termos de direitos e inclusão social. Embora operem dentro dos limites do sistema, podem servir como trincheiras de resistência e pontos de partida para pautas mais radicais.
    A direita radical busca insistentemente essa equiparação para validar a barbárie fascista sob o pretexto de um “combate ao sistema”. A militância classista não pode, em hipótese alguma, cair nessa armadilha. Trump é um inimigo de classe declarado, cuja ascensão representa uma ameaça existencial à democracia e aos direitos dos trabalhadores. Lula, apesar de suas contradições e da necessidade de uma crítica constante por seus limites, é um aliado tático fundamental neste momento da conjuntura, um anteparo contra a barbárie.
    Conclusão: A Paralaxe Militante e o Verdadeiro Inimigo
    A partir da vivência direta na luta de classes, fica evidente que a comparação proposta por esse pesquisador da direita radical é um exercício de desmoralização da esquerda e de obscurantismo político. Enquanto Trump e o trumpismo representam um projeto de destruição de direitos, opressão sistêmica e aprofundamento da desigualdade, Lula — mesmo com os limites impostos pela conciliação de classes — representa uma trincheira de resistência contra a ofensiva neoliberal e a ameaça fascista.
    O verdadeiro desafio da militância classista não é equiparar o reformismo à barbárie, mas sim exigir mais de Lula, empurrando para a radicalização democrática, para a ruptura com as amarras do “centrão” e do neoliberalismo, e para a construção de um projeto verdadeiramente popular.
    Para nós, militantes, o inimigo da classe trabalhadora não é o reformismo, mas o fascismo e o próprio sistema capitalista que o engendra. Esse pesquisador, mesmo pretendendo “conhecer Trump”, falha em compreender o essencial: a luta de classes não tem atalhos, e as falsas simetrias são ferramentas ideológicas que servem unicamente aos interesses da direita e à manutenção do status quo explorador. A decadência do modelo capitalista imperialista exige uma análise que revele as verdadeiras contradições, e não que as oculte sob comparações rasas.
    Referências e Textos Relevantes para Aprofundamento:
  • O artigo base para esta análise: “Lula e Trump têm ‘mesmo inimigo’, mas decidiram chamá-lo por nomes diferentes, diz pesquisador da direita radical” (Terra ou BBC News Brasil – observa-se que a impossibilidade de acesso direto à versão BBC levou à análise da premissa comum em veículos com o mesmo título).
  • Sobre Populismo e suas facetas:
  • LACLAU, Ernesto. A Razão Populista. São Paulo: Contracampo, 2005. (Para entender o conceito de populismo, embora com a devida crítica materialista).
  • DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A Nova Razão do Mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016. (Para contextualizar a ascensão do neoliberalismo e suas crises).
  • Sobre a luta de classes e a geopolítica:
  • MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. (Para os fundamentos da análise de classe).
  • HARVEY, David. O Novo Imperialismo. São Paulo: Loyola, 2004. (Para a compreensão das dinâmicas do capitalismo imperialista).
  • HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos: o breve século XX, 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. (Para a contextualização histórica das crises e ascensão de ideologias).

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