A questão do papel do indivíduo na história tem sido, e continua sendo, um dos debates mais férteis no campo do pensamento social. Desde Marx, com sua tese de que o modo de produção econômico determina a organização social, essa discussão ganhou contornos práticos, especialmente para aqueles engajados na transformação da sociedade. No centro dessa dialética entre determinismo estrutural e agência humana, emerge a complexa e fascinante jornada da formação de lideranças.
No âmbito da militância classista, da pedagogia e da formação de lideranças em movimentos sociais e sindicais, observa-se essa formação sob uma perspectiva única, que une a teoria à vivência concreta da luta. A práxis nesse campo é guiada pela busca incessante de reintegrar o ser humano à sua natureza e totalidade: pensar/fazer e fazer/pensar. Nessa jornada, o líder surge como um “ser completo”, forjado na dialética do materialismo histórico, reconhecido pelas organizações marxista-leninistas e, nas palavras de Antônio Gramsci, um verdadeiro intelectual de classe.
Plekhanov e a Dialética entre Leis Objetivas e Ação Individual
Georgi Plekhanov, ao aprofundar a tese marxista, oferece uma compreensão crucial: a história, embora moldada por leis objetivas inerentes ao desenvolvimento das forças produtivas e das relações de produção, não é um processo fatalista. Pelo contrário, a ação humana é o motor que impulsiona ou retarda o progresso histórico. Para Plekhanov, a revolução social não é uma fatalidade mecânica, mas o resultado da ação consciente e organizada de indivíduos que, compreendendo essas leis, dedicam-se à teoria, à organização e à mobilização das massas.
Nessa perspectiva da militância, o líder não é meramente um produto passivo das condições materiais; ele é um agente ativo que, ao desvendar as contradições e tendências históricas, atua deliberadamente para direcionar o curso dos acontecimentos. A experiência diária em bases sindicais, movimentos populares e partidos políticos com viés revolucionário confirma que o conhecimento das leis que regem a exploração e a opressão é vital, mas é a capacidade de organização, a elaboração teórica e a mobilização efetiva que distingue o líder genuíno. A reintegração do “pensar/fazer e fazer/pensar” nesse contexto é a essência do líder que transforma o conhecimento das leis históricas em um guia para a práxis revolucionária.
Althusser e os Aparelhos Ideológicos de Estado na Constituição do Sujeito
Louis Althusser, com sua teoria dos Aparelhos Ideológicos de Estado (AIEs) – como a família, a escola, a religião, a mídia, a cultura e os próprios sindicatos – oferece uma poderosa lente para entender como os indivíduos são interpelados e constituídos como sujeitos na sociedade. Os AIEs operam predominantemente pela ideologia, reproduzindo as relações de produção e a hegemonia da classe dominante.
No entanto, a jornada do líder classista subverte essa lógica. O processo de formação do indivíduo, desde o ambiente familiar e comunitário até os espaços escolar, acadêmico, cultural, religioso, econômico e político, é, sem dúvida, permeado pela ação dos AIEs. Contudo, o líder classista não é um mero produto passivo dessa interpelação ideológica. Ele se constitui como sujeito de sua própria história ao transitar e interagir criticamente com esses ambientes.
Nesse campo de atuação, observa-se como a escola, por exemplo, pode ser um AIE, mas também um espaço onde a reflexão crítica e a consciência social são despertadas e aprimoradas. Os movimentos sociais e sindicais, por sua vez, embora não imunes a tentativas de cooptação, são os terrenos férteis onde a contra-ideologia é forjada, onde a consciência de classe se desenvolve e onde a interpelação revolucionária ocorre. Adicionalmente, os partidos políticos com viés revolucionário desempenham um papel crucial na formação ideológica e prática de seus quadros, militantes e filiados, oferecendo espaços estruturados para o estudo, o debate e a ação organizada. O líder que emerge desse processo é aquele capaz de decodificar as ideologias dominantes, desenvolvendo uma visão crítica e transformadora, tornando-se uma referência por sua utilidade coletiva e individual.
Freire, Pichon-Rivière e o Grupo Operativo: A Formação da Liderança na Dinâmica Coletiva
A contribuição de Madalena Freire e Enrique Pichon-Rivière oferece uma perspectiva ainda mais profunda sobre a formação da liderança, especialmente no contexto dos movimentos sociais e partidos políticos. Pichon-Rivière, com sua teoria do grupo operativo, e Madalena Freire, ao aplicá-la à educação, enfatizam o grupo como ferramenta essencial para a aprendizagem, o desenvolvimento da identidade e a transformação social.
Para Pichon-Rivière, um grupo operativo é um conjunto de pessoas com necessidades semelhantes que se reúnem em torno de uma tarefa comum, onde cada membro assume um papel diferente e interage com os demais. Conceitos como o “grupo interno” (internalização de relações e experiências grupais) e os “papéis grupais” (líder, porta-voz, bode expiatório) são cruciais para compreender a dinâmica interna e a eficácia de um coletivo.
Madalena Freire levou essa teoria para o campo da pedagogia, defendendo o grupo como um espaço vital para a aprendizagem e a construção coletiva do conhecimento. Em obras como “A Paixão de Conhecer o Mundo”, ela demonstra como os grupos operativos promovem a interação, a reflexão crítica e a transformação social. Para Freire, o grupo é onde se aprende a pensar criticamente, a lidar com conflitos e a construir relações mais saudáveis e colaborativas.
Na experiência de formação de lideranças, a relevância dessa perspectiva é inegável. A liderança classista não se forja no isolamento, mas na interação constante e na construção coletiva. Os sindicatos, movimentos sociais e partidos políticos revolucionários são, em essência, grupos operativos gigantes, onde as necessidades comuns (a luta por direitos, por melhores condições de vida, pela transformação social) impulsionam a tarefa. Os líderes emergem dessa dinâmica: são aqueles que conseguem captar as necessidades do grupo (o “porta-voz”), que arriscam e inovam (o “líder de mudança”), e que muitas vezes absorvem as tensões (o “bode expiatório”).
A formação que se busca promover valoriza a participação ativa, a troca de ideias e a construção coletiva do conhecimento. É no calor do debate, na resolução conjunta de problemas e na organização da ação direta que os indivíduos desenvolvem suas habilidades de liderança. O líder “total” descrito é, em grande parte, produto de um processo grupal operativo, onde a dialética pensar/fazer se manifesta na prática coletiva, forjando a consciência e a capacidade de intervenção no mundo.
O Intelectual de Classe: Síntese e Práxis
A figura do intelectual de classe, cunhada por Antônio Gramsci, sintetiza de forma magistral essa visão da liderança. O líder não é um intelectual apartado das massas, mas aquele que emerge do próprio movimento, que organiza, dirige e articula a consciência de classe, construindo a hegemonia. Ele é o pensador-fazedor, o organizador-educador que emerge da luta e a ela retorna, para impulsionar a emancipação.
O líder é, portanto, um “produto forjado na dialética do materialismo histórico”. Ele surge das contradições do sistema capitalista, da luta de classes, da resistência e da busca incessante por uma nova ordem social. A vivência nesse campo permitiu observar e participar ativamente dessa forja, compreendendo que a verdadeira liderança revolucionária não é um dom inato, mas uma construção consciente e coletiva, uma síntese vital entre a teoria mais avançada e a prática mais engajada, profundamente enraizada nas dinâmicas de grupo.
Referências Relevantes:
- ALTHUSSER, Louis. Sobre a Reprodução. Petrópolis: Vozes, 2015.
- FREIRE, Madalena. A Paixão de Conhecer o Mundo. São Paulo: Paz e Terra, [Ano da edição utilizada, se souber].
- GRAMSCI, Antônio. Cadernos do Cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999-2002.
- MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. São Paulo: Boitempo, 2007.
- PICHON-RIVIÈRE, Enrique. Teoria do Vínculo. São Paulo: Martins Fontes.
- PLEKHANOV, Georgi. O Papel do Indivíduo na História. São Paulo: Editora Expressão Popular, 2017.
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