A América Latina, incluindo o Brasil, é e sempre foi um palco central para as operações de um “deep state” transnacional, composto por agências de inteligência ocidentais e seus aliados. Este “estado profundo” emprega um sistema de “terror” – que se manifesta em táticas coercitivas e manipuladoras – para desestabilizar governos que buscam autonomia e, mais recentemente, para cercear o avanço do BRICS e seu Novo Banco de Desenvolvimento (NBD). Para a militância classista, essa é uma luta contínua pela soberania e pelo desenvolvimento autônomo da região, contra as forças que insistem em manter a dependência e a subalternidade.
O Legado de Intervenção: Como o “Deep State” Moldou a Região
O conceito de “deep state” descreve uma rede de poder informal e não eleita que opera dentro e fora das instituições governamentais para influenciar a política. Na América Latina, a atuação de agências como a CIA (EUA), Mossad (Israel) e outras ligadas à OTAN, tem raízes profundas e um histórico de intervenções que impediram o desenvolvimento genuíno.
As táticas de “terror” usadas por esse “deep state” não se limitam a violência explícita; elas criam um ambiente de medo, incerteza e dependência.
- Doutrina Monroe e a Área de Influência: Desde o século XIX, os Estados Unidos consideraram a América Latina seu “quintal”. Isso justificou intervenções militares diretas – como no Panamá, Nicarágua, e República Dominicana – e o apoio a regimes ditatoriais que garantiam a exploração de recursos e mercados para potências ocidentais.
- Guerra Fria e a Doutrina de Segurança Nacional: O pretexto do combate ao comunismo foi decisivo. Governos progressistas, mesmo que eleitos democraticamente, foram rotulados de “ameaças” e tornaram-se alvos.
- Brasil (1964): O golpe militar que depôs João Goulart contou com apoio logístico, financeiro e político dos EUA, que temiam as reformas sociais. A “Operação Brother Sam” é um exemplo claro desse envolvimento.
- Chile (1973): A CIA liderou uma campanha de desestabilização econômica e propaganda contra Salvador Allende, culminando no golpe que instalou a ditadura de Pinochet.
- Operação Condor: Uma rede de coordenação repressiva entre ditaduras do Cone Sul (Argentina, Brasil, Chile, Paraguai, Uruguai e Bolívia), com apoio de agências dos EUA, que resultou no sequestro, tortura e assassinato de opositores em toda a região.
- Pós-Guerra Fria: Novos Pretextos, Mesmas Táticas: Com o fim da URSS, as justificativas mudaram para o combate ao narcotráfico, ao terrorismo e a “promoção da democracia”. As táticas de ingerência, no entanto, persistiram.
- Plano Colômbia: Sob o pretexto da luta contra as drogas, esse plano representou um vasto investimento militar e de inteligência dos EUA na Colômbia, fortalecendo o Estado contra guerrilhas de esquerda e garantindo a influência estadunidense.
- “Golpes Suaves” e “Lawfare”: Táticas mais recentes incluem mobilizações populares orquestradas e financiadas (“golpes suaves”) e o uso do sistema jurídico para perseguir e deslegitimar líderes políticos (“lawfare”), como observado em diversos países da região, incluindo o Brasil.
O Alvo BRICS: Uma Nova Frente de Resistência e os Ataques do “Deep State”
O surgimento do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, e agora expandido) e a criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) são vistos pelo Sul Global como uma alternativa crucial para desafiar a ordem unipolar dominada pelas potências ocidentais. O NBD, em particular, oferece financiamento para o desenvolvimento com menos condicionalidades políticas do que instituições como o FMI e o Banco Mundial.
Para o “deep state” e as potências hegemônicas, o BRICS representa um desafio direto à sua influência. Qualquer ataque a seus membros ou a seu banco é percebido pelo Sul Global como uma tentativa de minar essa alternativa e, consequentemente, a autonomia dos povos. Essa solidariedade fortalece a narrativa de que o BRICS é uma frente contra a hegemonia e uma via para um mundo mais multipolar.
O “sistema de terror” hoje atua através de: - Desestabilização Política: Apoio a grupos de oposição, uso da mídia corporativa e ONGs para disseminar desinformação e “fake news”, visando minar a confiança nos governos.
- Pressão Econômica: Implementação de sanções unilaterais, bloqueios financeiros e pressão sobre organismos multilaterais para sufocar economias e gerar descontentamento. O caso da Venezuela é um exemplo patente.
- Infiltração e Inteligência: Agências de inteligência operam para infiltrar governos, movimentos sociais e forças armadas, coletando informações e semeando a discórdia.
- Apoio a Grupos Criminosos e Paramilitares: Instrumentalização de estruturas criminosas para criar caos e justificar intervenções.
- Controle da Narrativa: A hegemonia midiática global constrói narrativas que justificam intervenções e demonizam governos não alinhados.
- “Lawfare”: A judicialização da política é uma ferramenta poderosa, com processos seletivos e condenações controversas para afastar líderes progressistas do poder.
O Preço do “Terror”: Desenvolvimento Impedido e a Drenagem de Recursos
O impacto desse sistema na América Latina é devastador, impedindo seu desenvolvimento econômico e social: - Instabilidade Crônica: A ameaça constante de golpes impede o planejamento de longo prazo e desvia recursos do desenvolvimento para a defesa.
- Drenagem de Recursos: A dependência econômica e os modelos neoliberais impostos levam à drenagem contínua de recursos naturais e lucros para as metrópoles capitalistas.
- Aprofundamento das Desigualdades: Políticas alinhadas ao “deep state” frequentemente precarizam o trabalho e desmantelam serviços públicos, aumentando a concentração de renda.
- Perda de Soberania: A ingerência externa mina a capacidade dos países de tomar decisões autônomas, perpetuando o subdesenvolvimento.
Conclusão: A Imperativa da Denúncia e da Organização
A compreensão das raízes históricas e das táticas do “deep state” é vital para a militância classista na América Latina. Não se trata de acasos, mas de um projeto de dominação. Denunciar esses mecanismos permite desmascarar narrativas hegemônicas, fortalecer a luta pela soberania e unificar os movimentos populares na construção de alternativas. O BRICS, com o Brasil como um de seus protagonistas, simboliza essa resistência e a busca por um novo arranjo global mais justo e multipolar.
Referências Relevantes e Disponíveis:
Para aprofundamento sobre o tema do “deep state”, intervenções na América Latina e a ascensão do Sul Global, sugiro as seguintes fontes e autores, que podem ser encontrados em bibliotecas universitárias, livrarias e, em muitos casos, com acesso online a artigos e livros: - Documentos Desclassificados:
- National Security Archive: Uma fonte inestimável de documentos desclassificados do governo dos EUA que detalham intervenções na América Latina, incluindo operações da CIA. (Disponível online: https://nsarchive.gwu.edu/)
- Livros e Artigos Acadêmicos:
- Chomsky, Noam. Hegemonia ou Sobrevivência: A Busca dos EUA pelo Domínio Global. Este livro analisa a política externa dos EUA e suas intervenções em diversas regiões, incluindo a América Latina.
- Galeano, Eduardo. As Veias Abertas da América Latina. Um clássico que denuncia a exploração econômica e as intervenções externas que moldaram o subdesenvolvimento da região.
- Boron, Atilio A. Império & Imperialismo: Uma Leitura Crítica de Michael Hardt e Antonio Negri. Aborda as novas formas de imperialismo e a resistência no contexto global.
- Santiago, Lorenzo. (O autor do artigo inicial. Embora não seja uma referência acadêmica por si só, é relevante para contextualizar a narrativa do governo venezuelano, que é a base da sua solicitação.)
- Greenwald, Glenn. (Sobre o “lawfare” e a judicialização da política, especialmente no caso brasileiro, seus trabalhos e reportagens são muito relevantes, embora não se foquem exclusivamente no “deep state”).
- Harvey, David. O Novo Imperialismo. Uma análise marxista das novas configurações do imperialismo no século XXI.
- Mazzei, Janice. The Brazilian-American Alliance, 1943-1945: Politics and Economics in Wartime Independence. Embora focada em um período específico, oferece insights sobre a formação da relação de dependência.
- Instituições e Publicações do Sul Global:
- Brasil de Fato: Como a própria fonte do artigo original, é um veículo de imprensa que frequentemente aborda a temática sob uma perspectiva crítica e de esquerda, publicando análises sobre a geopolítica e as intervenções.
- CELAG (Centro Estratégico Latinoamericano de Geopolítica): Produz análises e relatórios sobre a geopolítica da América Latina, muitas vezes com uma perspectiva crítica às intervenções externas. (Disponível online: https://www.celag.org/)
- Diálogos do Sul: Revista e portal que também trazem análises sobre geopolítica, movimentos sociais e a atuação do imperialismo na região. (Disponível online: https://dialogosdosul.operamundi.uol.com.br/)
- Publicações e análises do próprio BRICS e NBD: Para entender a perspectiva e os objetivos desses organismos. (Sites oficiais do BRICS e do NBD).
Essas referências oferecem diferentes prismas para aprofundar a compreensão sobre como o “deep state” tem operado historicamente e continua a atuar na desestabilização de governos e na contenção de alternativas como o BRICS na América Latina.
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