No final do século XX, o Rio Grande do Sul era reverenciado como o “Celeiro do Brasil” e um dos estados mais desenvolvidos do país. Sua economia robusta, diversificada entre agricultura, pecuária e uma indústria que se consolidava (como a coureiro-calçadista e a metal-mecânica), o colocava em posição de destaque nacional. A educação era uma bandeira, a cultura pulsava e o senso de pertencimento, embalado pelo hino “Sirvam nossas façanhas de modelo à toda a Terra”, construía uma identidade de orgulho e prosperidade. Contudo, as últimas décadas revelaram uma trágica inversão desse cenário. Impulsionado por falsas narrativas e decisões tomadas por elites irresponsáveis, arrogantes e prepotentes, o outrora próspero Rio Grande do Sul transformou-se, para a maioria de seu povo, em um verdadeiro inferno na terra.
A análise crítica de Carlos Águedo Paiva, ao desvelar a estagnação econômica e o êxodo populacional, atesta a falência de um projeto de estado conduzido por uma “acholocracia” que prioriza delírios de grandeza em detrimento da realidade concreta. No fim do século passado, o RS ainda respirava os ares de uma industrialização em expansão e uma agricultura familiar forte, sustentada por um cooperativismo que, embora já mostrasse sinais de concentração, ainda preservava laços com suas bases. O modelo catarinense e paranaense, que Paiva tanto exalta — focado em cadeias produtivas intensivas em mão de obra, como a avicultura e a suinocultura, com forte articulação entre a pequena propriedade e as cooperativas — era uma possibilidade real de futuro para o Rio Grande do Sul. Por que essa rota não foi seguida?
A resposta reside na arrogância de uma elite que se considerava superior e avessa ao que classificava como “tradicional” ou “simples”. Herdando, em parte, o ranço de fluxos migratórios que aqui se refugiaram para perpetuar valores conservadores e um certo distanciamento do restante do país, essa elite cultivou uma visão de desenvolvimento descolada das reais vocações e necessidades do estado. A obsessão por indústrias de “alta tecnologia” importadas, muitas vezes por meio de volumosos subsídios e sem um planejamento de longo prazo, demonstrou ser um equívoco. Empresas como a Dell e a GM, atraídas com pompa, não reverteram a dinâmica de estagnação, e o “Silicon Valley” gaúcho, mais do que uma aspiração, revelou-se uma quimera que drenou recursos públicos sem gerar o impacto social e empregatício esperado.
Enquanto isso, setores vitais como a indústria coureiro-calçadista, os lácteos e a própria agricultura familiar, que poderiam ser modernizados e fortalecidos para garantir empregos massivos e distribuição de renda, foram negligenciados. A transformação de cooperativas, como as de Ijuí, em megaempreendimentos concentradores, que reproduzem a lógica do grande capital, é mais um reflexo dessa visão deturpada. Onde antes havia um princípio solidário e de apoio mútuo, a busca por escala e lucratividade a qualquer custo resultou no esmagamento das pequenas iniciativas e na precarização dos trabalhadores e produtores rurais, muitos dos quais foram forçados ao êxodo ou à submissão a um sistema que antes prometia autonomia.
Essa política de “desenvolvimento” levou a uma desindustrialização silenciosa e à dependência de commodities, como a soja, que, embora representem riqueza para poucos, geram poucos empregos e expõem o estado à volatilidade do mercado internacional e às intempéries climáticas. A “acholocracia”, ao insistir em projetos faraônicos e inviáveis, como o Porto de Arroio do Sal – um delírio em uma orla de correntes violentas e sem estrutura adequada –, demonstra sua total desconexão com a realidade e seu desprezo pelas consequências sociais e ambientais.
O resultado é um estado que, ao invés de ser modelo, expulsa seus jovens talentos, afunda-se em dívidas e, mais recentemente, sucumbe a catástrofes climáticas que, embora naturais, tiveram seus impactos amplificados pela omissão e pelo planejamento urbano e ambiental irresponsável, ditado pelos interesses de uma minoria. O orgulho “Sirvam nossas façanhas” tornou-se uma ironia amarga diante de um cenário de vulnerabilidade e sofrimento generalizado.
A recuperação do Rio Grande do Sul exige não apenas recursos financeiros, mas uma profunda mudança de rumo, de mentalidade e de poder. É fundamental que as vozes da maioria trabalhadora e dos movimentos sociais se levantem para desmascarar essas falsas narrativas e exigir um projeto de desenvolvimento que seja verdadeiramente inclusivo, sustentável e baseado nas necessidades reais do povo gaúcho. A Constituição Federal, em seus artigos 1º, III (dignidade da pessoa humana), 3º, II e III (erradicação da pobreza e redução das desigualdades), 170 (função social da propriedade e do meio ambiente) e 186 (função social da propriedade rural), oferece o respaldo legal para um modelo de estado que priorize a vida sobre o lucro e que construa um futuro de dignidade para todos, e não apenas para as elites que o levaram ao abismo. O inferno na terra pode e deve ser combatido pela organização e luta do povo.
Referências e Bases Constitucionais para um Novo Projeto de Estado:
- Artigo sobre a estagnação do RS: Paiva, Carlos Águedo. “Há ‘ponte para o futuro’ no rio grande amado?”. RED, 28 de junho de 2025. (Texto que serviu de base para a análise)
- Constituição da República Federativa do Brasil de 1988:
- Art. 1º, III: Garante a dignidade da pessoa humana como um dos fundamentos da República, o que implica em condições mínimas de existência digna para todos os cidadãos.
- Art. 3º, II e III: Estabelece como objetivos fundamentais da República construir uma sociedade livre, justa e solidária e erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais. Estes artigos respaldam a necessidade de políticas públicas que visem o bem-estar coletivo e a equidade, combatendo o modelo de concentração de riqueza.
- Art. 170: Define os princípios da ordem econômica, incluindo a função social da propriedade, a defesa do meio ambiente e a busca do pleno emprego. Esses princípios deveriam guiar o desenvolvimento, priorizando a geração de trabalho e a sustentabilidade ambiental sobre o lucro irrestrito.
- Art. 186: Trata da função social da propriedade rural, condicionando-a ao cumprimento de requisitos como o aproveitamento racional e adequado, a utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e a preservação do meio ambiente, observância das disposições que regulam as relações de trabalho e exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e trabalhadores. Este artigo é crucial para repensar o modelo do agronegócio exportador e promover a agricultura familiar e cooperativas que respeitem o trabalhador e o ambiente.
- Literatura e Pesquisas sobre o Desenvolvimento Regional Comparado: Estudos que abordem o sucesso de modelos como o de Santa Catarina e Paraná em cadeias produtivas específicas (avicultura, suinocultura, lácteos) e o papel do cooperativismo em suas origens e transformações.
- Análises sobre a História das Migrações e a Formação das Elites Gaúchas: Trabalhos que explorem o impacto cultural e político das correntes migratórias e a construção da identidade e dos valores das elites locais.
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