A “Independência” proclamada em 7 de setembro de 1822 por Dom Pedro I, às margens do Ipiranga, é a pedra angular da narrativa oficial brasileira. Essa versão, amplamente difundida em livros didáticos e celebrações cívicas, apresenta um processo heroico e pacífico, liderado por uma figura monárquica iluminada. No entanto, uma análise crítica e classista revela que essa foi, na verdade, uma manobra das elites agrárias e comerciais, em conluio com a corte, para garantir a continuidade de seus privilégios e a manutenção da estrutura escravista e latifundiária, sob uma nova roupagem política.
A materialidade histórica dialética, ou seja, a verdade que emerge da prática concreta e das contradições sociais, nos mostra que a independência não se deu com um grito simbólico, mas sim com a expulsão efetiva das tropas portuguesas de nosso território. E essa expulsão não foi um presente da coroa, mas sim o resultado de uma guerra popular e combativa, cujo epicentro foi a Bahia.
A Materialidade da Luta: Bahia, o Palco da Real Independência
Enquanto o 7 de setembro representou uma transição negociada “de cima para baixo”, o 2 de julho de 1823, data da Independência da Bahia, foi a verdadeira consolidação da soberania brasileira, forjada “de baixo para cima”. Em Salvador e no Recôncavo Baiano, a luta contra as forças portuguesas foi encarniçada, prolongada e, crucialmente, popular.
Nesse conflito, não foram apenas os grandes proprietários de terras ou a elite militar que pegaram em armas. A guerra na Bahia mobilizou negros libertos, escravizados, indígenas, sertanejos, lavradores e mulheres, muitos dos quais organizados em milícias populares. O famoso Batalhão dos Periquitos, por exemplo, era formado por pessoas comuns, que vestiam uma farda improvisada com tecidos verdes e amarelos, simbolizando a união popular pela causa. Figuras como Maria Quitéria, que se vestiu de homem para lutar, Maria Felipa, que liderou mulheres na defesa de Itaparica, e o Corneteiro Lopes, que com seu toque de corneta amedrontava as tropas inimigas, são exemplos luminosos dos verdadeiros heróis e heroínas dessa epopeia.
Esses homens e mulheres, cujos nomes são sistematicamente apagados da história oficial, não lutavam por uma coroa ou por privilégios de classe, mas pela terra, pela liberdade e pelo fim da opressão colonial. Sua vitória em 2 de julho foi a derrota material e inquestionável das forças portuguesas em solo brasileiro, garantindo a irreversibilidade da independência.
A Negação da Verdade: Como a Elite Oculta Nossa História
A elite brasileira, herdeira daquela que pactuou a independência de 1822, sempre teve interesse em manter uma narrativa que glorificasse seus ancestrais e minimizasse a participação popular. Ao celebrar o 7 de setembro como a data máxima da independência, ela:
- Apaga a luta popular: Desconsidera a resistência armada e o sacrifício de milhares de anônimos que, na prática, expulsaram os colonizadores.
- Mantém o caráter conservador: Reforça a ideia de que a independência foi um ato de conciliação, sem rupturas sociais profundas, o que justifica a manutenção das desigualdades.
- Invisibiliza os heróis do povo: Personagens como Maria Quitéria, Maria Felipa e João de Botas, que deveriam estar no panteão nacional, são relegados a um segundo plano, quando muito, a um folclore regional.
Essa falsificação histórica não é apenas um problema de memória; é uma estratégia de dominação ideológica. Ao nos privar do conhecimento de nossa verdadeira história de luta e resistência, a elite busca despolitizar o povo, enfraquecer sua consciência de classe e negar sua capacidade de transformar a realidade.
Reafirmando o 2 de Julho: A Data da Independência que o Povo Fez
É imperativo que resgatemos e celebremos o 2 de julho como a data da verdadeira independência do Brasil. Não como um feriado regional, mas como um dia que simboliza a vitória da luta popular sobre a dominação estrangeira e a manipulação das elites. Essa é a data em que a decisão pela independência foi executada e concluída pela força e coragem do nosso povo.
Denunciar as falsas narrativas não é apenas um exercício de revisionismo histórico, mas um ato de militância. É trazer à luz a materialidade histórica dialética de nossa formação, reconhecer os verdadeiros heróis de nossa pátria e fortalecer a consciência de que as grandes transformações sociais são construídas pela base, pelo esforço coletivo e pela luta incessante dos explorados contra seus algozes. A Bahia nos ensina que a independência, para ser completa, precisa ser feita pelo povo.
Referências e Leituras Recomendadas: - PONDÉ, L. (org.). A Guerra da Independência: a Bahia nas lutas de 1822-23. Salvador: EDUFBA, 2017.
- TAVARES, L. H. D. Independência do Brasil na Bahia. Salvador: EDUFBA, 2005.
- REIS, J. J. Rebelião Escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835. São Paulo: Companhia das Letras, 2003 (apesar de não ser diretamente sobre a Independência, oferece um panorama da luta e organização negra no período).
- SAUDERS, V. A. Maria Quitéria: heroína da Independência do Brasil. Salvador: EDUFBA, 2019.
- MONTEIRO, C. E. B. As faces da independência: Bahia, 1822-1823. Rio de Janeiro: FGV, 2012.
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