A Conexão Perigosa: Gaza, Vigilância e a Ameaça à Democracia Brasileira

É imperativo que a classe trabalhadora brasileira compreenda que os horrores de Gaza não são uma realidade distante, desvinculada de nossas vidas. A recente viagem de prefeitos e autoridades brasileiras a Israel, detalhada pelas análises, é um exemplo gritante de como a propaganda de guerra, a venda de tecnologias de vigilância e a doutrinação ideológica se interligam, ameaçando nossa soberania e os fundamentos da nossa democracia. O Brasil sempre foi, é e será um terreno fértil para a proliferação de falsas narrativas que tentam naturalizar até mesmo crimes contra a humanidade, como o genocídio e o infanticídio.
A Viagem: De “Intercâmbio” a Operação de Doutrinação e Comércio de Repressão
A narrativa oficial de que a comitiva de gestores municipais e estaduais foi a Israel para um “intercâmbio tecnológico” ou “estudos” é, na verdade, uma cortina de fumaça. Como demonstram as reportagens, a viagem foi integralmente custeada pelo governo israelense, um investimento estratégico para múltiplos objetivos:

  • Lobby Pró-Israel e Guerra Narrativa: Os políticos foram submetidos a uma doutrinação ideológica intensa, com um porta-voz do exército israelense atacando a mídia internacional e a ONU, e tentando justificar as ações militares em Gaza, incluindo a brutalidade contra civis. O objetivo explícito era transformar esses prefeitos em “embaixadores da verdade” de Israel no Brasil. Essa é uma tentativa flagrante de cooptar lideranças locais para disseminar uma narrativa que legitima a violência e a desumanização do povo palestino.
  • Expansão do Mercado de Vigilância e Controle: A viagem serviu como vitrine para empresas israelenses que vendem tecnologias de vigilância e segurança, muitas delas “testadas” em cenários de ocupação e conflito, como Gaza. Não por acaso, a comitiva incluía diversos secretários e chefes de segurança pública. A busca por essas tecnologias, como o reconhecimento facial e softwares de espionagem, visa a militarização das guardas municipais e o aparelhamento das forças de segurança no Brasil. Essa é uma face perigosa da privatização da segurança pública, que, na prática, significa mais ferramentas para o controle social e a criminalização das classes populares e dos movimentos sociais em nossas cidades.
  • Despolitização e Desumanização: A insistência de alguns gestores em afirmar que a viagem “não tinha ideologia nem política” é uma tática para desviar o foco da análise crítica. Não há neutralidade quando se aceita o custeio de uma viagem por um Estado em conflito, ou quando se busca tecnologia de empresas que lucram com a repressão. A tentativa de racionalizar a morte de civis e de relativizar o Direito Internacional Humanitário por parte dos doutrinadores israelenses é uma estratégia nefasta que busca naturalizar a barbárie e apagar a humanidade das vítimas.
    O Perigo à Democracia Brasileira: Da Propaganda Externa à Ameaça Interna
    Essa operação não é apenas um problema ético; é uma ameaça concreta à nossa democracia e soberania. Ao permitir que lideranças locais sejam doutrinadas e se tornem vetores de propaganda de guerra, abrimos precedentes perigosos:
  • Manipulação da Opinião Pública: A formação de “embaixadores da verdade” visa diretamente a manipular a opinião pública brasileira, enfraquecendo a capacidade da sociedade de discernir fatos e de se posicionar criticamente diante de conflitos internacionais e de suas repercussões internas.
  • Militarização e Restrição de Liberdades: A importação de tecnologias de vigilância e o modelo de “segurança” adotado por governos de direita e extrema-direita, que buscam inspiração em cenários de ocupação, tendem a reforçar um Estado policialesco, com o aumento da vigilância, o armamento de forças locais e a potencial supressão de direitos e liberdades, especialmente das populações mais vulneráveis.
  • Desvirtuamento dos Recursos Públicos: A destinação de verbas para aquisição de tecnologias de controle, muitas vezes sem a devida transparência e fiscalização, desvia recursos que poderiam ser aplicados em políticas sociais essenciais para a classe trabalhadora, como saúde, educação e moradia.
    Referências Constitucionais e Legais: Conspiração Contra a Nação
    As ações descritas, de cooptação, doutrinação e importação de modelos de segurança que podem levar à repressão, configuram sérias violações e representam uma conspiração contra os princípios e valores que regem o Estado Democrático de Direito no Brasil.
  • Princípios da Constituição Federal: A Constituição de 1988, em seu Art. 4º, estabelece a prevalência dos direitos humanos e a autodeterminação dos povos como princípios das relações internacionais do Brasil. Aceitar a doutrinação sobre um conflito que envolve genocídio e a venda de tecnologias de repressão vai diretamente contra esses princípios.
  • Leis de Segurança Nacional e Crimes contra o Estado Democrático de Direito: Embora a viagem em si não seja um crime de imediato, a intenção de propagar falsas narrativas e a aquisição de ferramentas de vigilância que podem ser usadas para fins ilegítimos se aproximam de condutas que, em seu limite, podem configurar crimes contra a segurança nacional ou contra o Estado Democrático de Direito, especialmente se envolverem uso abusivo de poder, violação de privacidade ou repressão de direitos fundamentais. A Lei nº 14.197/2021, que tipifica os crimes contra o Estado Democrático de Direito, e a Lei de Abuso de Autoridade (Lei nº 13.869/2019) devem ser observadas.
  • Improbidade Administrativa: O uso de recursos públicos ou a aceitação de custeio por parte de um governo estrangeiro para fins que claramente não beneficiam o interesse público e, pior, servem a uma agenda de propaganda de guerra, podem configurar atos de improbidade administrativa, passíveis de responsabilização.
    O Alerta da Militância Classista: Olhos Abertos, Luta Permanente!
    Não podemos nos iludir: as mortes de crianças em Gaza e o sofrimento do povo palestino têm, sim, a ver conosco. A lógica de “segurança” e controle que Israel exporta é a mesma que, adaptada, pode e está sendo aplicada em nossas periferias, militarizando nossas cidades e oprimindo a classe trabalhadora.
    É urgente que a militância classista, os movimentos sociais, os sindicatos e todos os defensores da democracia denunciem veementemente essas operações de doutrinação e lobby. Precisamos exigir transparência sobre os gastos, fiscalizar a aquisição e o uso dessas tecnologias de vigilância e combater a naturalização de narrativas que justificam a violência e o genocídio.
    Nossa solidariedade ao povo palestino não é apenas um gesto humanitário; é um ato de defesa da nossa própria liberdade e dos princípios que regem uma sociedade justa e democrática. A luta contra o imperialismo e a exploração se trava em todos os fronts, do global ao local.
    Referências e Documentos Relevantes:
  • Constituição Federal de 1988: Artigo 4º (Princípios das Relações Internacionais).
  • Lei nº 14.197/2021: Lei que tipifica os crimes contra o Estado Democrático de Direito.
  • Lei nº 13.869/2019: Lei de Abuso de Autoridade.
  • Lei nº 8.429/1992: Lei de Improbidade Administrativa.
  • Matérias do Intercept Brasil: “Propaganda de guerra e tecnologia de vigilância: por que Israel pagou viagem de prefeitos brasileiros” (17 de jun de 2025).
  • Matérias do ICL Notícias: “Políticos brasileiros que viajaram a Israel e ficaram em bunkers tiveram doutrinação sobre Gaza” (22/06/2025).
  • Matérias do Valor Econômico: “O que prefeitos brasileiros foram fazer em Israel — e por que acabaram no meio do conflito com Irã” (16/06/2025).
  • Livro “Laboratório Palestina: como Israel exporta tecnologia de ocupação para o mundo”, de Antony Loewenstein. (Para aprofundamento sobre as tecnologias de vigilância israelenses).

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