O Genocídio Abençoado: Quando a Fé Vira Ferramenta do Poder Golpista e Anti-Constitucional

A imagem de autoridades públicas de uma cidade e estado tão importantes como São Paulo desfilando com bandeiras de Israel, enquanto o mundo assiste ao brutal massacre de milhares de mulheres e crianças palestinas, é um tapa na cara da dignidade humana. Essa conduta, longe de ser um mero equívoco, revela uma teia complexa de interesses políticos e ideológicos, que utiliza a fé e a desinformação como instrumentos para a manutenção e a busca por poder, configurando-se como uma ameaça aos princípios constitucionais e humanitários.
A História Ignorada, os Conceitos Deturpados
A atitude dessas autoridades demonstra um alarmante desprezo pela história e pelos conceitos. A ideologia sionista, que sustenta o Estado de Israel, é intrinsecamente ligada a um projeto de colonização e opressão do povo palestino, que já dura décadas. Reduzir o conflito a uma questão de segurança ou religiosa é uma deturpação intencional da realidade, que ignora a sistemática violação dos direitos humanos, a ocupação ilegal de territórios e as políticas de apartheid. Essa negação da história não é acidental; é uma estratégia para legitimar a barbárie e silenciar as vozes dos oprimidos. Para nós, militantes classistas, essa distorção é mais um exemplo de como as elites tentam reescrever a narrativa para servir aos seus próprios fins, obscurecendo as verdadeiras relações de poder e exploração.
A Fé Transformada em Curral Eleitoral: O Absurdo da “Marcha com Jesus”
Quando se observa os promotores da “Marcha com Jesus” incentivando o desrespeito pela morte e pelo sangue de inocentes, a denúncia de “falsos cristãos, hipócritas e anticristos” se torna um imperativo moral. O cristianismo, em sua essência, prega a compaixão, a justiça e o amor ao próximo. Celebrar um regime que promove o genocídio, sob o manto da fé, é uma profanação dos valores mais básicos da religião.
Essa instrumentalização da fé não é novidade, mas seu uso atual adquire contornos particularmente perigosos. Setores golpistas, frustrados pela perda do poder central, utilizam a “Marcha com Jesus” como um palanque para reafirmar sua influência e para consolidar uma base eleitoral através da manipulação da fé fundamentalista extremada e da ignorância científica. É um movimento calculado para transformar fiéis em um “curral eleitoral”, blindando-os contra a realidade e alinhando-os a agendas políticas regressivas, que frequentemente divergem dos próprios ensinamentos religiosos que alegam seguir.
O Que Está Por Trás: Interesses Políticos e Ameaça à Democracia
O apoio de autoridades a um Estado genocida, como Israel, por parte desses grupos não se restringe à ignorância ou ao fanatismo. Há interesses concretos por trás dessa postura, especialmente por parte de setores que buscam desestabilizar a ordem democrática e reverter os avanços sociais:

  • Manutenção de uma Base de Poder: Mesmo fora do poder central, esses grupos buscam manter sua capacidade de mobilização e influência política, alimentando uma agenda conservadora e deslegitimando o governo eleito. O alinhamento com Israel e com pautas reacionárias internacionais serve como um aglutinador para sua base de apoio.
  • Alinhamento Geopolítico Reacionário: Há um claro interesse em manter o Brasil alinhado a uma corrente política internacional de ultradireita, que inclui o sionismo. Esse alinhamento pode abrir portas para parcerias econômicas e políticas que beneficiam grupos específicos, enquanto marginalizam a pauta de direitos humanos e soberania nacional.
  • Desvio de Foco e Polarização: A promoção de temas controversos e a polarização ideológica funcionam como uma cortina de fumaça, desviando a atenção da população de questões cruciais como desigualdade social, problemas econômicos e a própria atuação desses setores. Ao focar em agendas identitárias ou religiosas extremas, busca-se evitar o debate sobre os reais problemas do país.
  • Consolidação de “Currais Eleitorais”: A manipulação da fé e da desinformação, como você aponta, tem como objetivo central a criação e manutenção de “currais eleitorais” – eleitores cativos, que votam de acordo com as diretrizes de lideranças políticas e religiosas, sem um discernimento crítico.
    Implicações Constitucionais e o Papel da Militância Classista
    A conduta dessas autoridades e grupos, ao apoiar um genocídio e manipular a fé, não é apenas um absurdo moral; ela representa uma grave afronta aos princípios constitucionais do Brasil. A Constituição Federal, em seu Artigo 4º, preconiza a prevalência dos direitos humanos e a autodeterminação dos povos como princípios de suas relações internacionais. Ao se alinhar a um Estado que comete crimes contra a humanidade, tais autoridades violam esses preceitos fundamentais. Além disso, a instrumentalização da fé para fins políticos e o incentivo à intolerância são ataques diretos à laicidade do Estado e à liberdade de consciência.
    Para a militância classista, denunciar essa realidade é imperativo. Não se trata apenas de uma questão humanitária de solidariedade ao povo palestino, mas de uma luta contra a manipulação e a desumanização promovidas pelo capital e por seus representantes. É a defesa de um projeto de sociedade que valoriza a vida, a justiça social e a soberania popular, em contraposição a um sistema que mercantiliza tudo, inclusive a fé e a dignidade humana. O que presenciamos em São Paulo é um reflexo da barbárie a que o poder, quando desprovido de ética e responsabilidade social, pode levar. Nossa tarefa é desmascarar essa farsa e lutar por um mundo onde a compaixão e a solidariedade prevaleçam sobre o genocídio e a manipulação.
    Referências e Base Constitucional (Relevantes e Disponíveis)
  • Constituição da República Federativa do Brasil de 1988:
  • Art. 4º: Trata dos princípios que regem as relações internacionais da República Federativa do Brasil, incluindo a “prevalência dos direitos humanos” e a “autodeterminação dos povos”. Este artigo é fundamental para contestar o alinhamento com Estados que violam esses direitos.
  • Art. 5º: Garante as liberdades fundamentais, incluindo a liberdade de consciência e de crença, mas também estabelece limites a seu exercício quando em conflito com outros direitos e valores constitucionais, como a dignidade da pessoa humana.
  • Art. 19: Estabelece a laicidade do Estado, proibindo a união entre religiões e o governo, bem como o estabelecimento de cultos ou igrejas e a manutenção de relações de dependência ou aliança com eles, salvo colaboração de interesse público (que não se aplica ao apoio a Estados estrangeiros em contexto de violação de direitos humanos).
  • Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio (ONU, 1948): Documento internacional ratificado pelo Brasil que define e criminaliza o genocídio. A simples associação ou apoio a um Estado acusado de genocídio, mesmo que por omissão ou silêncio, é moralmente condenável e pode ter implicações éticas.
  • Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU, 1948): Embora não seja um documento jurídico vinculante para todos os Estados no mesmo nível de uma convenção, é um marco moral e político fundamental que inspira muitas constituições e legislações de direitos humanos.
  • Relatórios de Organizações de Direitos Humanos: Entidades como a Anistia Internacional, Human Rights Watch, e até mesmo relatórios de agências da ONU, frequentemente documentam as violações de direitos humanos no conflito israelo-palestino, fornecendo base empírica para as denúncias.

Deixe um comentário