A Língua Brasileira: Uma Construção Popular Forjada na Luta de Classes e na Resistência


A discussão sobre se o português falado no Brasil é uma variação do português europeu ou uma língua autônoma transcende os debates acadêmicos de linguistas. Como militantes classistas, entendemos que essa não é uma questão neutra, mas um campo de batalha ideológico onde poder, identidade nacional e a própria luta pela emancipação do proletariado se entrelaçam profundamente. A língua brasileira, em sua forma viva e multifacetada, é um testemunho da capacidade de resistência e criação das grandes massas populares, forjada no embate contra as elites opressoras.
A Autonomia Linguística: Uma Realidade Forjada na Diversidade
As análises de linguistas como Eni P. Orlandi confirmam o que a experiência cotidiana do povo brasileiro já demonstra: o que falamos aqui se distingue significativamente do português europeu. Desde a chegada dos colonizadores, a língua importada da metrópole passou por um processo intenso de transformação. O vasto território, a rica miscigenação, e, acima de tudo, a inegável influência das mais de mil línguas indígenas e dos idiomas africanos (como os da família banto) legaram ao português brasileiro um vocabulário, uma fonética e até mesmo peculiaridades gramaticais que o tornam único.
A distinção entre a “língua fluida” – o português efetivamente falado e compreendido pelas massas no dia a dia – e a “língua imaginária” – um padrão normativo idealizado, muitas vezes calcado na norma europeia – é central. Essa tensão, presente desde os primórdios da formação do Brasil, reflete uma disputa pelo controle e pela validação da linguagem. Enquanto as elites e a Academia muitas vezes hesitaram em nomear nossa língua como “brasileira”, optando por termos genéricos como “língua nacional”, a realidade do uso e da vivência popular já atestava a heterogeneidade linguística e a materialidade de um idioma singular.
A Língua como Campo de Batalha na Luta de Classes
Para a militância classista, a língua não é apenas um sistema de comunicação; é uma ferramenta de poder e um espelho das relações sociais. É nesse ponto que a defesa da “língua brasileira” se alinha intrinsecamente à nossa luta.

  • O Preconceito Linguístico como Arma Burguesa: Como brilhantemente desmistifica Marcos Bagno em sua obra “Preconceito Linguístico: o que é, como se faz”, a discriminação linguística não é sobre “erros” gramaticais, mas sobre preconceito social. A burguesia aristocrática e reacionária, em sua arrogante incompetência de “adestrar e padronizar” as grandes massas trabalhadoras que chamava de “indolentes”, usa a norma culta como um critério de exclusão. Desvalorizar as variantes regionais, os sotaques populares, as construções que se desviam do padrão eurocêntrico é uma forma de violência simbólica, que busca minar a autoestima e a dignidade do proletariado, limitando seu acesso à educação e a oportunidades no mercado de trabalho.
    Nós, comunistas brasileiros, não podemos nos dar ao luxo de reproduzir qualquer forma de preconceito ou discriminação, incluindo o linguístico. Isso seria fragmentar a classe trabalhadora e desviar o foco do verdadeiro inimigo. A luta pela emancipação exige unidade e reconhecimento da dignidade de cada indivíduo da classe trabalhadora, independentemente de sua forma de expressão.
  • A Resistência Linguística como Ato de Desobediência: A língua brasileira foi forjada nos embates constantes, nas convivências muitas vezes não pacíficas, mas necessárias para a sobrevivência das comunidades oprimidas. Nas senzalas, nos quilombos, nas periferias urbanas e rurais, o povo, em sua “vigorosa teimosia em ser livre e emancipada”, resistiu à imposição de uma única forma de falar. As variações, os regionalismos e a riqueza vocabular influenciada por outras culturas são cicatrizes e troféus dessa resistência.
    Essa língua real, falada e compreendida pelas massas, é um produto da desobediência e da resiliência popular. Ela carrega a memória das lutas e a recusa em ser domesticada. Defendê-la, em toda a sua pluralidade, é reconhecer e valorizar a autonomia e a capacidade de criação das classes subalternas, que apesar da opressão violenta de seus algozes, nunca se deixaram completamente subjugar.
  • A Língua como Símbolo de Soberania e Ferramenta de Emancipação: A defesa da “língua brasileira dos brasileiros” é um ato de descolonização cultural. Ela contrapõe a hegemonia de um padrão linguístico colonial e reafirma a soberania do nosso povo sobre sua própria expressão. Para o proletariado, a língua se torna um instrumento vital para a conscientização de classe, para a organização das lutas e para a construção de um discurso próprio de emancipação. É através de uma língua que se conecta com a realidade e a cultura popular que a classe trabalhadora pode se unir, articular suas demandas e vislumbrar um futuro de igualdade e justiça social.
    A Língua Brasileira e a Constituição: Um Olhar Crítico-Constitucional
    A Constituição Federal de 1988, em seu Artigo 13, afirma que “A língua portuguesa é o idioma oficial da República Federativa do Brasil”. No entanto, a realidade linguística do país é muito mais complexa, com o reconhecimento de línguas indígenas, por exemplo. Para uma perspectiva classista, essa determinação constitucional levanta questões importantes: até que ponto essa oficialização do “português” não perpetua uma hierarquia linguística que invisibiliza e marginaliza a própria língua brasileira em sua vasta diversidade?
    O debate pela oficialização e pleno reconhecimento do “brasileiro” como língua independente não é apenas um formalismo. É uma oportunidade de democratizar o Estado e de fazer com que a letra da lei reflita a rica e multifacetada realidade linguística de nosso povo. A língua brasileira, em sua pujança e variedade, deve ser plenamente reconhecida e valorizada, não como um desvio, mas como a expressão autêntica da nação brasileira, forjada na história de suas lutas e de sua gente.
    Conclusão: Por uma Língua que Liberte
    A língua brasileira é um monumento à resistência popular. Ela não foi concebida nas academias ou imposta por decretos; ela foi gestada e parida nos embates diários da convivência e da insubordinação.
    Nossa tarefa, enquanto militantes classistas, é:
  • Combater sem tréguas o preconceito linguístico, reconhecendo e valorizando cada sotaque, cada regionalismo, cada variação como parte legítima da riqueza de nossa língua.
  • Promover uma educação que celebre a diversidade, garantindo que a escola seja um espaço de empoderamento linguístico, e não de reprodução de hierarquias de classe.
  • Utilizar a língua brasileira em sua forma mais autêntica como ferramenta de conscientização e organização para a luta pela emancipação do proletariado, desvelando as verdades do sistema e inspirando a construção de um futuro socialista.
    Que a “língua brasileira dos brasileiros” seja um símbolo vivo de nossa teimosia em ser livre e um instrumento poderoso em nossas mãos para construir um mundo sem opressão e sem preconceitos.
    Referências Disponíveis e Relevantes:
  • Bagno, Marcos. Preconceito Linguístico: o que é, como se faz. 50. ed. São Paulo: Loyola, 2011. (Obra fundamental para entender a dinâmica do preconceito linguístico e seus mitos no Brasil).
  • Orlandi, Eni P. “A Língua Brasileira”. In: Ciência e Cultura, v. 57, n. 2, p. 44-46, 2005. (Artigo crucial que defende a autonomia do português brasileiro).
  • Disponível em: http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-67252005000200016&script=sci_arttext
  • Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Artigo 13. (Para a base legal sobre o idioma oficial).
  • Museu da Língua Portuguesa. (Recurso institucional que, embora nomeado pela língua portuguesa, aborda a evolução e as particularidades da língua no Brasil, incluindo suas diversas influências).
  • Referência citada no material: A hora e a vez do português brasileiro. Museu da Língua Portuguesa. Disponível em: https://www.museudalinguaportuguesa.org.br/a-hora-e-a-vez-do-portugues-brasileiro-a-lingua-falada-no-brasil-nao-vem-apenas-dos-portugueses-ela-tambem-recebeu-influencia-de-indios-africanos-e-migrantes-europeus/
  • Artigo “Novo idioma pode ser oficializado e substituir o português no Brasil”, por Pedro Silvini (Mix Conteúdos Digitais, 16/06/2025). (O ponto de partida da discussão que gerou esta análise, apresentando o debate e a posição de linguistas como Fernando Venâncio).
  • Blog “O Lugar da Língua Portuguesa”, Isabel A. Ferreira. Post “«A Língua Brasileira»” (02/02/2018). (Contém a reprodução do texto de Eni P. Orlandi e os comentários do debate, que ilustram a tensão entre as perspectivas portuguesa e brasileira da língua).

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