A escalada de confrontos e a mobilização militar em Los Angeles, em resposta aos protestos contra as políticas anti-imigração do governo Donald Trump, expõem um preocupante aprofundamento de traços autoritários e, para muitos analistas e militantes, de um caráter fascista no cerne da administração republicana. Longe de ser um incidente isolado, a repressão na Califórnia ressoa com uma onda de manifestações e resistência que explode por todo o país, denunciando a tentativa de imposição de uma “lei e ordem” que viola direitos e desmantela consensos democráticos.
A Retórica e a Ação: Pilar de um Caráter Fascista
O conceito de “fascismo” evoca regimes históricos marcados por nacionalismo exacerbado, autoritarismo, supressão da dissensão, demonização de minorias e militarização da vida civil. A conduta do governo Trump, especialmente em seu segundo mandato, tem exibido elementos que se encaixam perigosamente nessa definição. A começar pela retórica: a caracterização dos atos em Los Angeles como “motins de imigrantes” e a fala presidencial sobre “invasões” e “criminosos ilegais” não são meras declarações políticas, mas um discurso que desumaniza e criminaliza um segmento da população, abrindo caminho para a justificação da violência estatal.
Donald Trump, ao afirmar que fez “a coisa certa” ao enviar tropas e que “se não fizéssemos o trabalho, aquele lugar estaria queimando como as casas”, estabelece uma narrativa de guerra contra “inimigos internos”. Essa linguagem não busca o diálogo ou a pacificação social, mas a polarização e a legitimação de uma resposta agressiva, que visa impor o medo e sufocar qualquer forma de resistência. A ameaça de invocar a Lei da Insurreição, que permite ao presidente enviar forças militares para reprimir rebeliões, sublinha a disposição em ultrapassar os limites da governança democrática em favor de um controle autoritário.
Los Angeles: O Palco da Repressão Militarizada
A cidade de Los Angeles tornou-se um símbolo dessa escalada. Mais de 2.000 membros da Guarda Nacional, com 700 fuzileiros navais em prontidão, foram mobilizados para conter protestos que, em sua essência, são manifestações legítimas contra políticas governamentais. A reação das autoridades locais e estaduais foi imediata e incisiva: o procurador-geral da Califórnia, Rob Bonta, e o governador Gavin Newsom (Partido Democrata), anunciaram um processo contra o governo Trump, alegando que o envio de tropas “excede a autoridade do governo federal” e viola a 10ª Emenda da Constituição, que delimita os poderes federais e estaduais.
A prefeita de Los Angeles, Karen Bass, denunciou o envio de tropas federalizadas como uma “escalada perigosa” e afirmou que o que se presencia é “o caos provocado pelo governo”. Essa oposição clara por parte de líderes eleitos localmente, que representam as comunidades impactadas, demonstra a natureza impositiva e não consensual da ação federal. O uso do Título 10 do Código dos EUA para mobilizar a Guarda Nacional, embora com precedentes históricos (como nos movimentos pelos Direitos Civis ou nos protestos de Detroit em 1967), adquire um novo e alarmante significado quando direcionado à supressão de manifestações civis contra políticas anti-imigração em uma cidade que se autodeclara “santuário”.
A Luta de Classes e a Demonização dos Imigrantes
Do ponto de vista da militância classista, a política anti-imigração de Trump e a subsequente repressão revelam a essência da instrumentalização da xenofobia para dividir e controlar a classe trabalhadora. Os imigrantes, especialmente aqueles em situação irregular, são frequentemente explorados como mão de obra barata em setores vitais como a agricultura e a construção civil na Califórnia, como aponta o artigo. Ao criminalizá-los e ameaçá-los com deportações em massa, o governo não apenas desumaniza indivíduos, mas também enfraquece a solidariedade entre os trabalhadores, desviando a atenção da exploração capitalista.
As “cidades santuário”, como Los Angeles, representam uma forma de resistência local a essa lógica. Suas políticas de não colaboração com as autoridades federais de imigração são um reconhecimento de que a integração dos imigrantes é fundamental para a economia e a sociedade local. A tentativa de Trump de impor sua vontade sobre essas cidades, como visto nos confrontos em Paramount entre moradores e agentes do ICE, demonstra uma batalha não apenas por soberania jurídica, mas por modelos de sociedade: um que privilegia a repressão e a segregação, e outro que busca acolher e integrar.
A Mobilização Popular e o Futuro da Democracia
As manifestações que se espalham pelo país, de São Francisco (onde 148 pessoas foram detidas) a Nova York (onde o ex-governador Andrew Cuomo teme ser o próximo alvo), são a resposta necessária a essa guinada autoritária. Elas representam a voz das comunidades, dos defensores dos direitos humanos e de todos aqueles que percebem o perigo que a conduta de Trump representa para os alicerces democráticos.
O embate entre Trump e o governador Gavin Newsom, que se posiciona como um dos críticos mais ferrenhos e um possível candidato presidencial em 2028, transcende a mera disputa partidária. Ele reflete a batalha entre visões antagônicas sobre o futuro dos Estados Unidos: uma que abraça o autoritarismo e a militarização da vida civil, e outra que, mesmo com suas próprias limitações, busca preservar as liberdades civis e a autonomia federativa.
Em última análise, a denúncia do caráter fascista do governo Trump não é um mero exercício retórico, mas um chamado à ação. A mobilização popular e a vigilância constante são as únicas salvaguardas contra a erosão das instituições democráticas e a opressão de setores da classe trabalhadora. Os eventos em Los Angeles são um alerta, mas também um testemunho da resiliência daqueles que se recusam a ver seus direitos e sua dignidade subjugados pela força.
Referências Relevantes:
- BBC News Brasil. “O que está acontecendo em Los Angeles, onde manifestantes enfrentam tropas da Guarda Nacional enviadas por Trump.” Publicado em 8 de junho de 2025, atualizado em 9 de junho de 2025. (Material base para esta análise).
- Pew Research Center. Dados e análises sobre imigração nos Estados Unidos.
- Artigos acadêmicos e políticos sobre o conceito de fascismo e suas manifestações contemporâneas em democracias ocidentais.
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