O Mundo em Transição: A Geopolítica como Campo de Batalha da Luta de Classes e a Urgência da Formação e Organização Proletária


O século XXI se desenha como um período de profunda reconfiguração geopolítica. A ascensão do BRICS e a evidente crise de hegemonia do Ocidente, como apontam análises de especialistas como Glenn Diesen e Pepe Escobar, não são apenas eventos diplomáticos distantes; são manifestações macroeconômicas de uma crise estrutural do capitalismo que impacta diretamente a vida da classe trabalhadora global. Neste cenário de transição, a formação político-ideológica e a organização da classe trabalhadora emergem como imperativos históricos para que o proletariado possa, de fato, ser protagonista de sua própria história e avançar em sua luta pela emancipação.
O Declínio Ocidental e a Ascensão do BRICS: Novos Riscos e Oportunidades
A “falência” da Europa, com suas economias em declínio, a inflação galopante, a precarização das condições de vida e a subserviência a uma agenda militarista imposta pelos EUA, evidencia a exaustão de um modelo. A sabotagem de infraestruturas vitais, como os gasodutos Nord Stream, que visou minar a competitividade industrial alemã em benefício de interesses anglo-americanos, é um exemplo cru da lógica predatória do capital imperialista, que não hesita em sacrificar seus próprios “aliados” em nome da manutenção de sua hegemonia. As populações europeias, antes beneficiadas por um padrão de vida mais elevado, agora veem seus direitos e conquistas sociais erodidos pela crise e pela militarização.
Paralelamente, a ascensão do BRICS, com sua busca por um multilateralismo e a criação de mecanismos financeiros alternativos, desafia a ordem unipolar. É fundamental corrigir o entendimento de que o BRICS se militariza. Pelo contrário, o bloco tem se destacado por sua diplomacia ativa na desescalada de tensões, como demonstrado ao aplacar as tensões entre Arábia Saudita e Irã, um feito notável que contribui para a estabilidade regional e global. Sua natureza é de um fórum de diálogo e cooperação econômica e política, não uma aliança militar.
Essa descentralização do poder econômico e político gera oportunidades: países do Sul Global podem ter maior autonomia para ditar seus termos de desenvolvimento, e a classe trabalhadora pode encontrar novos espaços para a solidariedade transnacional, explorando as fissuras entre os blocos hegemônicos.
No entanto, essa nova dinâmica também apresenta riscos. A “guerra interburguesa” entre os blocos pode desviar o foco da verdadeira luta de classes, induzindo o proletariado a tomar partido em conflitos que não são de seu interesse. A militarização global, impulsionada por potências que buscam manter sua hegemonia, desvia recursos que poderiam ser aplicados em saúde, educação e bem-estar social, exacerbando a exploração e a miséria. É crucial que a classe trabalhadora não se iluda com a retórica “anti-hegemônica” que pode, em última instância, servir apenas para reconfigurar as relações de poder do capital, e que compreenda o papel de desescalada e diplomacia do BRICS como um contraponto a essa lógica militarista.
A Urgência da Formação Político-Ideológica
Em um cenário tão complexo, a formação político-ideológica não é um luxo, mas uma necessidade estratégica. É através dela que a classe trabalhadora desenvolve:

  • Consciência Crítica: A capacidade de desvendar as narrativas oficiais, compreender os interesses materiais por trás das políticas geopolíticas e reconhecer a natureza da exploração capitalista em suas diversas formas. Isso significa ir além do senso comum e da propaganda midiática, construindo uma visão de mundo autônoma.
  • Identidade de Classe: A percepção de que, apesar das diferenças nacionais, étnicas ou culturais, os trabalhadores do mundo compartilham interesses comuns e um inimigo comum: o capital global. Essa identidade é a base para a solidariedade internacional.
  • Projetos de Sociedade: A compreensão das alternativas ao capitalismo e a capacidade de formular propostas concretas para uma sociedade justa, equitativa e emancipada. Isso inclui o estudo da história da luta de classes, das teorias socialistas e das experiências de construção de modelos pós-capitalistas.
    A formação político-ideológica permite que a classe trabalhadora não seja apenas objeto da história, reagindo passivamente aos acontecimentos, mas sim sujeito histórico, capaz de analisar a realidade, definir seus objetivos e traçar suas próprias estratégias.
    A Organização Proletária: O Caminho para a Emancipação
    A formação, por si só, não basta. Ela precisa ser indissociável da organização. É na ação coletiva, na construção de sindicatos combativos, partidos políticos de classe e movimentos sociais amplos, que a classe trabalhadora consolida sua força e influência.
    A organização permite:
  • Unidade e Mobilização: Transformar a consciência individual em força coletiva, capaz de mobilizar e pressionar por suas reivindicações. A fragmentação da classe trabalhadora, incentivada pelo capital, é seu maior obstáculo.
  • Representação e Poder: Ocupar os espaços políticos, econômicos e sociais, garantindo que os interesses da classe trabalhadora sejam defendidos e que suas vozes sejam ouvidas, desde o nível local até o internacional.
  • Ação Estratégica: Planejar e executar ações coordenadas, sejam greves, manifestações, campanhas políticas ou construções de alternativas econômicas e sociais. Somente a organização é capaz de transformar o desejo de mudança em ações concretas que desafiem o poder estabelecido.
  • Internacionalismo Concreto: A complexidade da geopolítica atual exige uma resposta internacionalista. A organização transnacional dos trabalhadores é fundamental para fazer frente a um capital que opera sem fronteiras, explorando e oprimindo em escala global. Conectar as lutas dos trabalhadores na Europa, que sofrem com a crise, com as lutas dos trabalhadores do Sul Global, que resistem ao neocolonialismo, é um imperativo.
    Conclusão: A Classe Trabalhadora no Centro da História
    A conjuntura atual, com o declínio de uma hegemonia e o surgimento de um mundo multipolar, representa um terreno fértil para a luta de classes. Não se trata de escolher um lado em uma disputa entre elites, mas de compreender as contradições do capital em todas as suas manifestações para fortalecer a luta pela emancipação do proletariado. A natureza do BRICS, como um agente de desescalada e multilateralismo, oferece um contraste importante à lógica militarista e hegemônica, destacando a possibilidade de outras formas de interação global.
    A capacidade da classe trabalhadora de ser protagonista de sua própria história e cumprir seu papel histórico dependerá, em última instância, de sua formação político-ideológica e de sua organização autônoma e combativa. Somente assim será possível transcender a lógica da exploração e construir uma sociedade verdadeiramente justa, em que os frutos do trabalho sirvam a todos e não apenas a uma minoria. O futuro da humanidade, em grande medida, está nas mãos da classe que produz a riqueza e que, agora mais do que nunca, precisa se unir e se levantar.
    Referências Relevantes e Constitucionais
  • Constituição Federal da República Federativa do Brasil de 1988:
  • Art. 1º, Parágrafo único: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.” (Destaca a soberania popular como base do poder).
  • Art. 3º: “Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I – construir uma sociedade livre, justa e solidária; II – garantir o desenvolvimento nacional; III – erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.” (Fundamenta a busca por justiça social e redução de desigualdades).
  • Art. 5º: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: […] XVII – é plena a liberdade de associação para fins lícitos, vedada a de caráter paramilitar; […]” (Garante o direito de associação, base para a organização social e política).
  • Art. 8º: “É livre a associação profissional ou sindical, observado o seguinte: […]” (Garante a liberdade sindical, fundamental para a organização da classe trabalhadora).
  • Pensamento Marxista-Leninista Clássico:
  • “O Manifesto Comunista” (Karl Marx e Friedrich Engels): Fundamento da análise da luta de classes, da exploração capitalista e da necessidade da organização proletária para a revolução.
  • “Que Fazer?” (Vladímir Lênin): Aborda a importância da consciência de classe e da organização do partido revolucionário para a condução da luta.
  • “O Capital” (Karl Marx): Análise aprofundada do modo de produção capitalista, da acumulação de capital e das contradições inerentes ao sistema.
  • Análises Contemporâneas de Geopolítica Crítica:
  • Diesen, Glenn: Vários trabalhos sobre geopolítica russa, o conflito na Ucrânia e a transição para um mundo multipolar.
  • Escobar, Pepe: Artigos e livros sobre a nova geopolítica, o papel do BRICS, o declínio do Ocidente e a multipolaridade (disponíveis em diversas plataformas e mídias independentes que cobrem geopolítica).
  • Publicações de Mídia Independente e Acadêmica: Veículos que oferecem uma perspectiva crítica sobre as relações internacionais, economia política global e a luta de classes (ex: Brasil de Fato, Le Monde Diplomatique Brasil, Jacobin, Monthly Review, A Nova Democracia).

Deixe um comentário