A Cacau Show, gigante do setor de chocolates e uma das maiores redes de franquias do Brasil, encontra-se atualmente no centro de uma série de questionamentos que vão muito além de sua gestão de negócios. Analisando em paralaxe a partir de nossa vivência na militância classista, percebemos que as recentes controvérsias não são meros ruídos, mas sintomas de uma possível distorção da sua função econômico-social, colocando em xeque a dignidade e os direitos de milhares de trabalhadores que fazem parte de nossa base sindical.
O Contexto do “Escândalo”: Da Ambiguidades de CNAE às Graves Acusações
Inicialmente, o que se popularizou como “escândalo da Cacau Show” começou com uma curiosidade sobre suas classificações de atividades econômicas (CNAE). Para a militância classista, essa distinção é vital: enquanto o CNAE 1093-7/01 (Fabricação) indica a produção, o CNAE 4721-1/04 (Comércio Varejista de Doces, Balas, Bombons e Semelhantes) é o que enquadra diretamente os milhares de trabalhadores nas lojas, confirmando que os funcionários das unidades de Salvador pertencem à base de representação do SINTRASUPER. Essa clareza é o primeiro passo para a ação.
Contudo, a gravidade da situação se aprofundou com as denúncias de um ambiente de “seita” e assédio que vieram à tona. Relatos apontam para:
- Rituais questionáveis: Acusações de práticas místicas no ambiente de trabalho, incluindo o uso de roupas brancas, participação em cerimônias com velas e cânticos liderados pelo próprio CEO.
- Assédio e discriminação: Graves relatos de assédio moral, gordofobia, homofobia e assédio sexual, supostamente tolerados ou até praticados por lideranças. A recusa em participar de certas atividades teria gerado perseguições e retaliações.
- Impacto em franqueados e famílias: Denúncias de falências e represálias que, segundo relatos, teriam “arruinado famílias”.
A resposta da empresa, que se defende alegando “ataques injustos” e descrevendo as práticas como rituais de gratidão espontâneos ou experiências sensoriais, não apaga a seriedade das acusações que já estão sob investigação do Ministério Público do Trabalho (MPT).
O “Cacau Park”: Um Projeto Megalomaníaco em Colisão com a Realidade do Trabalhador?
Em paralelo a estas graves denúncias, surge a percepção de que o ambicioso projeto “Cacau Park” é um empreendimento “megalomaníaco e egocêntrico” que pode estar “afundando” a empresa. Sob o olhar classista, esta é uma questão crucial: - Alocação de Recursos: Enquanto grandes somas de capital são direcionadas a um projeto de alto risco, surge a indagação se a prioridade da gestão está de fato na solidez da empresa e na segurança de seus trabalhadores, ou em uma expansão desmedida que pode comprometer a sustentabilidade.
- Impacto na Segurança do Emprego: Projetos grandiosos, quando mal dimensionados, podem levar a cortes de custos que recaem sobre a força de trabalho, gerando precarização, arrocho salarial e demissões. A militância deve estar atenta para garantir que o ônus de decisões arriscadas não seja jogado sobre os ombros dos trabalhadores.
- Função Social da Empresa: Empresas do porte da Cacau Show possuem uma função social inegável: gerar empregos dignos, valorizar seus colaboradores e contribuir para o desenvolvimento social e econômico. Um projeto percebido como vaidade pessoal, em detrimento do bem-estar coletivo, desvia a empresa de seu propósito social fundamental.
A Urgência da Intervenção Sindical e a Defesa da Nossa Base
Diante deste cenário, a necessidade de intervenção na defesa dos trabalhadores da Cacau Show, que fazem parte da nossa base do SINTRASUPER em Salvador, é imperativa e inadiável. Não podemos permitir que as ambições empresariais ou supostas falhas de gestão comprometam a subsistência e a dignidade daqueles que constroem a riqueza da empresa com seu suor.
Nossa Estratégia de Ação: - Mobilização dos Trabalhadores: É fundamental que os trabalhadores da Cacau Show em Salvador estejam cientes de seus direitos e das denúncias. A mobilização interna é o primeiro passo para fortalecer a voz da categoria, criando um ambiente onde o medo seja substituído pela solidariedade e pela consciência de classe.
- Busca por Negociação Direta: O SINTRASUPER buscará imediatamente uma mesa de negociação com a Cacau Show. As pautas serão claras: esclarecimento das denúncias de assédio, garantia de um ambiente de trabalho saudável e digno, e a transparência sobre os impactos do projeto Cacau Park na saúde financeira da empresa e, consequentemente, na segurança dos empregos.
- Envolvimento da Federação dos Empregados no Comércio (FEC): Para fortalecer nossa posição e ampliar o alcance de nossas demandas, acionaremos a FEC. A Federação trará o peso e a experiência de uma entidade de nível superior, consolidando nossa voz e buscando o apoio de outras entidades sindicais e da sociedade civil.
Fundamentação Constitucional e Legal: Nossos Direitos são Inegociáveis!
A defesa dos trabalhadores não é apenas uma questão de justiça social; é um mandato constitucional e legal. Nossas ações se pautam nos pilares da República Federativa do Brasil: - Art. 1º, IV, da Constituição Federal de 1988: A República Federativa do Brasil tem como fundamentos, entre outros, o valor social do trabalho e da livre iniciativa. O trabalho não é mera mercadoria; ele tem valor social e dignidade que precisam ser respeitados.
- Art. 5º, XIII, da Constituição Federal de 1988: Garante a liberdade de exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer. Isso implica um ambiente de trabalho livre de coerção e assédio.
- Art. 7º, da Constituição Federal de 1988: Estabelece os direitos sociais dos trabalhadores, que visam à melhoria de sua condição social. Inclui, entre outros, a proteção contra despedida arbitrária ou sem justa causa, e a redução dos riscos inerentes ao trabalho, por meio de normas de saúde, higiene e segurança. A dignidade humana e a vedação à discriminação são eixos centrais.
- Art. 8º, da Constituição Federal de 1988: Assegura a liberdade de associação profissional ou sindical. É este artigo que legitima a atuação do SINTRASUPER na defesa dos direitos e interesses da categoria, tanto coletivos quanto individuais.
- Consolidação das Leis do Trabalho (CLT): A CLT, em seus artigos que tratam das relações de trabalho, da saúde e segurança e do combate ao assédio (moral e sexual), é a base legal para todas as nossas reivindicações.
Convocação à Luta
Convocamos todos os trabalhadores da Cacau Show em Salvador, nossos companheiros e companheiras de base, a se unirem ao SINTRASUPER. A defesa de nossos direitos e a garantia de um ambiente de trabalho digno e respeitoso dependem da nossa organização e da nossa voz coletiva. Não permitiremos que a busca por lucros ou projetos megalomaníacos comprometa a vida e a dignidade de quem realmente constrói a Cacau Show.
Juntos somos mais fortes! Pela dignidade e pelos direitos dos trabalhadores!
Referências Disponíveis e Relevantes: - Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.
- Consolidação das Leis do Trabalho (Decreto-Lei nº 5.452/1943).
- Informações sobre CNAE 4721-1/04 e 1093-7/01 (IBGE/CONCLA).
- Notícias da mídia sobre as acusações de “seita” e assédio na Cacau Show (Veículo: Veja, Terra, Metrópoles – exemplos: “CEO da Cacau Show se explica das acusações de seita para funcionários”, “Seita da Cacau Show? ‘Famílias arruinadas’: polêmica com acusações de ex-funcionários agita web”).
- Informações sobre a base de representação do SINTRASUPER (Convenções Coletivas de Trabalho, Estatuto Sindical).
- Informações sobre o Projeto Cacau Park (notícias de imprensa e anúncios da empresa).
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