A atração humana, em suas diversas formas e expressões, é frequentemente reduzida a um fenômeno puramente biológico ou psicológico individual. No entanto, para nós, militantes classistas e revolucionários, é fundamental desmascarar as determinações sociais e econômicas que moldam até mesmo as mais íntimas das nossas preferências. A recente pesquisa sobre as preferências de altura na seleção de parceiros, embora em sua superfície trate de meras predileções físicas, oferece um rico campo para uma análise materialista-histórica que revela como as estruturas de classe e os modelos de vida impactam nossas escolhas e, consequentemente, as dinâmicas sociais e reprodutivas.
A Biologia sob o Crivo da Contradição de Classes
É inegável que a biologia desempenha um papel na atração. A altura, por exemplo, pode ser um indicador de saúde, boa nutrição e resiliência genética, elementos que historicamente foram cruciais para a sobrevivência da espécie. No entanto, o erro reside em naturalizar essas “preferências” como universais e imutáveis, desconsiderando as condições materiais que as permitem manifestar-se ou as distorcem.
Em uma sociedade dividida em classes, a altura não é apenas uma característica biológica; ela se torna um capital, um marcador social.
- Acesso à Nutrição e Saúde: A capacidade de atingir o potencial genético de altura está intrinsecamente ligada ao acesso à alimentação de qualidade, saneamento básico e saúde preventiva desde a infância. Onde a burguesia detém os meios de produção e explora a força de trabalho, a classe trabalhadora é sistematicamente privada desses recursos. Crianças da periferia, do campo, de famílias pauperizadas, muitas vezes não atingem sua altura plena devido à má-nutrição e à falta de acesso a condições dignas de vida. Assim, a “preferência” por indivíduos mais altos pode ser, em essência, uma preferência por aqueles que foram privilegiados pelas condições de vida que só o capital pode comprar.
- A Altura como Capital Social e Econômico: Em sociedades capitalistas, a altura, especialmente para homens, é frequentemente associada a maior renda, status e até mesmo oportunidades de liderança. Quantos de nós já não observamos como homens mais altos parecem ter uma “vantagem” em entrevistas de emprego ou em negociações sociais? Isso não é uma lei natural, mas uma construção social que reforça a hierarquia e a dominação. A preferência feminina por homens mais altos, então, não é puramente biológica, mas uma adaptação (consciente ou inconsciente) às exigências do sistema, onde o homem “provedor” e “seguro” é aquele que tem mais capital (incluindo o capital biológico transformado em social).
Desvendando as Preferências de Gênero sob a Lente Classista
A pesquisa aponta que mulheres tendem a preferir homens mais altos, e homens tendem a preferir mulheres mais baixas, com nuances para o contexto de relacionamento (curto ou longo prazo). Como militantes, devemos ir além da simples constatação: - Para as Mulheres da Classe Trabalhadora: A busca por um parceiro “mais alto”, que simboliza saúde e (indiretamente) capacidade de provisão e segurança, é uma estratégia de sobrevivência em um sistema que as oprime duplamente: pela exploração de classe e pelo patriarcado. A “norma do homem mais alto” é um reflexo da estrutura patriarcal da sociedade capitalista, que impõe à mulher a busca por proteção e segurança, muitas vezes personificadas na figura masculina “forte”. Mesmo em países com maior igualdade de gênero como a Noruega, a persistência dessa preferência indica o quão profundamente arraigadas estão as normas de gênero historicamente construídas sob o domínio do capital.
- Para os Homens da Classe Trabalhadora: A preferência por mulheres mais baixas para relacionamentos de curto prazo, e talvez uma menor “exigência” de altura para longo prazo, pode refletir as complexas pressões sobre o homem explorado. Ele, também subjugado pelo capital, busca na atração física uma validação ou uma compensação. A preferência por mulheres mais baixas pode ser uma busca por uma parceira que se enquadre em um ideal de feminilidade submissa e que não “ameace” sua (já precária) posição de “provedor” ou “protetor” dentro da família proletária, que é a unidade básica reproduzida e oprimida pelo sistema.
O Contexto Material Transcultural: Capitalismo Global e a Luta de Classes
A inclusão de países como Canadá, Cuba, Noruega e Estados Unidos na pesquisa permite uma reflexão mais profunda sobre como diferentes sistemas político-econômicos interagem com essas preferências. - Capitalismo Neoliberal (EUA, Canadá): Nestes cenários, a individualização e a competição são acentuadas. A “atração” se torna mais uma faceta do “mercado” de relacionamentos, onde características físicas como altura são mercantilizadas e valorizadas como “ativos”. A desigualdade de classes é brutal, e a altura pode ser um diferencial que reflete essa desigualdade.
- Social-Democracia (Noruega): Mesmo em uma social-democracia com alto grau de bem-estar social, as contradições do capital persistem. Embora o acesso a recursos seja mais equitativo, a lógica do capital e as normas culturais globais ainda influenciam. A persistência da preferência por homens mais altos sugere que nem mesmo as políticas de bem-estar são suficientes para erradicar completamente as influências de um sistema globalizado que ainda valoriza certos atributos.
- Cuba (Sistema Socialista): O caso de Cuba é particularmente revelador. Em um país que se propôs a superar as desigualdades de classe, onde o acesso à saúde e alimentação é universalizado (ainda que com desafios impostos pelo imperialismo), as preferências de altura poderiam teoricamente ser menos “mercadológicas”. Se a altura ainda se manifesta como fator de atração, é um lembrete da profundidade das construções sociais e biológicas que se entrelaçam e da batalha contínua contra os resquícios das superestruturas ideológicas capitalistas, mesmo em um contexto revolucionário. No entanto, a forma como essa preferência é vivenciada e suas implicações sociais podem ser radicalmente diferentes, pois o valor do indivíduo não está atrelado ao seu poder de consumo ou status social burguês.
Conclusão: Desnaturalizar para Transformar
Como militantes, nosso papel é desnaturalizar esses fenômenos. A preferência por altura não é uma lei universal e imutável da natureza humana, mas um complexo resultado da interação entre nossa biologia e as relações de produção e reprodução social. As condições materiais de existência, a divisão de classes, o patriarcado e a ideologia dominante moldam a forma como percebemos e valorizamos as características físicas em nós mesmos e nos outros.
Compreender que as preferências de altura, assim como outras dinâmicas de atração, são permeadas pelas contradições de classe, é um passo crucial para a conscientização revolucionária. Não se trata de negar a atração, mas de entender que ela é uma ferramenta do sistema quando não é compreendida criticamente.
Nossa luta é pela libertação da classe trabalhadora, por uma sociedade onde as condições de vida sejam plenamente acessíveis a todos, onde a altura plena de cada indivíduo seja garantida pelo direito à saúde e nutrição, e onde as relações humanas sejam baseadas na igualdade e solidariedade, e não nas deformações impostas pelo capital e suas hierarquias. É somente numa sociedade sem classes que a atração poderá florescer em sua plenitude, desimpedida das amarras da exploração e da opressão, livre das distorções de um “mercado” de corpos e de almas. Essa é a base para a verdadeira emancipação humana.
Referências Relevantes (Disponíveis e Implícitas no Artigo) - Artigo da Pesquisa Analisada:
- Pisanski, K., Fernandez-Alonso, M., Díaz-Simón, N., Oleszkiewicz, A., Sardinas, A., Pellegrino, R., Estevez, N., Mora, E. C., Luckett, C. R., & Feinberg, D. R. (Data da Publicação no Artigo Original) Assortative mate preferences for height across short-term and long-term relationship contexts in a cross-cultural sample. Publicado em Frontiers in Psychology. (O artigo original da pesquisa é a fonte primária de dados para nossa análise).
- Fundamentos do Materialismo Histórico e Dialético:
- Marx, K., & Engels, F. (1848). Manifesto do Partido Comunista. (Para a base da análise de classe e as determinações econômicas e sociais).
- Engels, F. (1884). A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. (Para a compreensão da família e dos papéis de gênero sob o prisma materialista).
- Críticas Feministas Materialistas:
- Beauvoir, S. de. (1949). O Segundo Sexo. (Para a construção social do feminino e masculino, que pode ser aplicada à discussão da altura e gênero).
- Autores que abordam a interseccionalidade e a construção social do corpo e da beleza sob o capitalismo.
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