O Grito Silenciado: As Consequências Históricas das Falsas Narrativas na Construção da Nação Brasileira

A tela “Independência ou Morte!” (1888), de Pedro Américo, mais conhecida como “O Grito do Ipiranga”, é, sem dúvida, a imagem mais difundida da proclamação da independência do Brasil. Impregnada no imaginário popular e presente em quase todos os livros didáticos, ela moldou a percepção de gerações sobre um dos momentos mais cruciais da história nacional. Contudo, como demonstra a crítica histórica e a análise sob a perspectiva classista, essa obra não é um retrato fiel dos fatos, mas uma construção ideológica com profundas consequências para a compreensão do processo histórico e para a própria identidade nacional. Este artigo denunciará as implicações dessas narrativas falsas, explorando como elas invisibilizam as verdadeiras lutas e heróis do povo brasileiro.
A Alegoria Monárquica e a Deturpação dos Fatos
Pedro Américo, ao pintar “O Grito do Ipiranga” a pedido de Dom Pedro II para o Museu do Ipiranga, não se propôs a ser um cronista fiel, mas um idealizador de um mito fundador. A escolha do cavalo imponente para Dom Pedro I, em contraste com a provável mula, a comitiva luxuosa, o cenário grandioso e a postura heroica, tudo converge para uma exaltação da figura imperial e da monarquia como a grande agente da independência. Essa representação, como aponta Lilia Moritz Schwarcz, servia para legitimar o Segundo Reinado e forjar uma imagem de unidade e concórdia na fundação do império, apagando as tensões e os interesses divergentes (Schwarcz, 1998).
A realidade, conforme historiadores como Laurentino Gomes (2010), era bem diferente: a independência foi um processo complexo, negociado, por vezes violento, e protagonizado por diversas forças sociais e regionais. A cena do “grito” foi provavelmente um evento mais modesto, em uma estrada poeirenta, longe do esplendor retratado. A intenção de Pedro Américo era criar uma alegoria política, um símbolo, e não um documento histórico. O problema reside no fato de que essa alegoria foi, e ainda é, consumida como a verdade histórica, enraizando equívocos e silenciamentos.
As Consequências Históricas das Narrativas Falsas
As narrativas falsas, ou, mais precisamente, as narrativas hegemônicas que distorcem a história em benefício de certas classes ou grupos, têm um impacto duradouro e pernicioso:

  • Invisibilização das Lutas Populares e Regionais:
    A glorificação do “Grito do Ipiranga” em São Paulo marginalizou o papel crucial de outras regiões e, sobretudo, das lutas populares na consolidação da independência. A Guerra da Bahia (1822-1823), com suas batalhas sangrentas e intensa participação popular — incluindo negros libertos e escravizados, indígenas e sertanejos —, foi fundamental para expulsar definitivamente as tropas portuguesas do território brasileiro. Contudo, essa e outras resistências (como em Pernambuco e no Maranhão) foram ofuscadas pela centralidade atribuída ao evento paulista (Tavares, 1975). Essa invisibilidade perpetua a ideia de uma independência “dada” por um monarca, e não “conquistada” pela força e sacrifício de diversas camadas da população.
  • Ocultamento dos Conflitos de Classe e Interesses Elitistas:
    Ao apresentar a independência como um ato unificado e consensual, a narrativa do “Grito do Ipiranga” esconde os profundos conflitos de classe que permearam o processo. A independência brasileira foi, em grande medida, um pacto entre as elites agrárias do Centro-Sul e Nordeste para preservar a ordem social, a propriedade e, crucialmente, a escravidão. A imagem de Dom Pedro I cercado por cortesãos e grandes proprietários rurais no quadro de Américo é um testemunho dessa aliança de classes. A “liberdade” proclamada não se estendeu às vastas camadas de escravizados, indígenas e pobres, que continuaram sob o jugo da exploração (Prado Jr., 1966). Essa omissão impede a compreensão de que a independência foi, para muitos, uma mera mudança de metrópole, mantendo as estruturas de desigualdade interna.
  • Reforço da Centralização e da Exclusão Política:
    A centralidade dada ao Sudeste e ao “Grito” contribuiu para a formação de um Estado centralizador que, ao longo da história, tendeu a sufocar as autonomias regionais e a ignorar as especificidades e demandas das periferias. Essa narrativa histórica, ao não reconhecer a diversidade e a complexidade das forças atuantes, reforça uma visão unitária e verticalizada da nação, que legitima a concentração de poder e a exclusão política de grupos e regiões que desafiam o status quo.
  • Perpetuação de uma “História de Heróis” em Detrimento da “História do Povo”:
    A ênfase em figuras individuais e heroicas, como Dom Pedro I (mesmo que idealizado), despolitiza o processo histórico ao retirar o foco das ações coletivas. A história passa a ser vista como obra de grandes homens, e não como resultado da dinâmica social, das contradições e das lutas das massas. Isso desempodera o cidadão comum, ao não reconhecer sua capacidade de ser agente transformador da história, e dificulta a formação de uma consciência crítica e classista.
    A Inconclusão da Independência e da Abolição: Um Legado das Narrativas Falsas
    A percepção de que a independência e a abolição da escravatura foram processos “inconclusos” é uma das mais dolorosas consequências dessas narrativas falsas. Ao não reconhecer o caráter parcial e excludente desses eventos, a sociedade brasileira falha em confrontar as raízes históricas de suas desigualdades atuais. A ausência de uma reforma agrária, a persistência do racismo estrutural e a profunda concentração de renda são legados diretos de uma fundação nacional que privilegiou as elites e silenciou as massas.
    A “falsa conciliação” pregada pela narrativa oficial impede a compreensão da violência fundadora do Brasil e a necessidade de reparação histórica. Sem essa compreensão, torna-se mais difícil construir um projeto de nação verdadeiramente inclusivo, que valorize a diversidade, promova a justiça social e reconheça os verdadeiros heróis que, com seu sangue e suor, construíram e resistiram ao longo dos séculos.
    Conclusão: A Urgência da Honestidade Intelectual e Histórica
    Denunciar as narrativas falsas sobre a independência e a abolição não é um mero revisionismo histórico, mas um ato de militância pela verdade e pela justiça social. É um convite a:
  • Ressignificar os símbolos nacionais, buscando imagens e narrativas que representem a pluralidade do Brasil e as lutas de seus povos.
  • Resgatar a memória dos verdadeiros heróis populares, visibilizando a participação de negros, indígenas, camponeses, trabalhadores e mulheres nas grandes transformações históricas.
  • Promover uma educação histórica crítica, que capacite as novas gerações a questionar, analisar e construir sua própria compreensão do passado.
    Somente ao varrer para o “lixo da história” as falsas narrativas e abraçar uma honestidade intelectual e histórica, o Brasil poderá, de fato, “passar a limpo” seu passado e construir um futuro de emancipação plena para todas as suas classes sociais.
    Referências Bibliográficas:
  • Gomes, Laurentino. (2010). 1822: Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro I a criar o Brasil – um país que tinha tudo para dar errado. Nova Fronteira.
  • Prado Jr., Caio. (1966). Formação do Brasil Contemporâneo: Colônia. Brasiliense.
  • Schwarcz, Lilia Moritz. (1998). As Barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. Companhia das Letras.
  • Tavares, Luís Henrique Dias. (1975). A Independência do Brasil e a Guerra da Bahia. Civilização Brasileira. (Reedições mais recentes também disponíveis).

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